Imagens do real
Desde os primórdios das civilizações, as cidades têm sido o local por excelência da produção tecnológica, intelectual e artística nas mais variadas sociedades do planeta.
Seu papel na gestação de culturas originais informadas por elementos de diversos povos e movimentadas por uma incessante circulação de ideias, permitiu às urbis uma posição privilegiada no campo de conhecimento.
Espaços de diversidade étnica, linguística, comportamental e ideológica, as cidades são guardiãs do debate cultural em todas as épocas históricas e fontes inesgotáveis do imaginário coletivo.
As cidades são o lugar do hibridismo e do trânsito de informação. São caldeirões pluriétnicos e poliglotas. Enquanto espaços mestiços são espaços multiculturais, que enfatizam o reconhecimento e a visibilidade das diferenças.
A importância cultural e o fascínio que as cidades exercem se manifestam também na capacidade de construir e veicular imagens de si mesmas.
A cidade da Bahia teve o privilégio de contar com artistas plásticos, fotógrafos, músicos, dramaturgos, cineastas e escritores para moldar uma imagem potente e duradoura conhecida como baianidade.
Destaco aqui um ensaio de um cânone da literatura, João Ubaldo Ribeiro que pegou o bastão das mãos de Jorge Amado na escritura e veiculação de uma baianidade:
Não sou, Deus é grande, sociólogo, mas acho que a principal influência é africana, como quase tudo na Bahia. A noção de pecado não existe nas religiões africanas que chegaram ao Brasil. (…) Pecado, que pecado pode haver em desfrutar pacificamente dos prazeres que deus criou para nós nesse vale de lágrimas, sem fazer mal a ninguém, antes fazendo bem? (…) Sim, é isso e tudo mais na Bahia. Uma terrina de vatapá é um sol esplendoroso no meio de uma mesa de variedade inumerável, todas as cores, cheiros e ritmos fagulhando no ar, todos os sentidos mais acesos do que antes suporíamos possível, e prontos para trazer o mundo inteiro para dentro de nós. (…) E que é que se vai fazer, se tudo na Bahia é tesão clara, onipresente e incoercível? Desfrutar, é claro, ars longa vita brevis – tudo dentro da mais absoluta normalidade. Quem não concorda é que não deve ser normal (João Ubaldo in Revista Vogue Bahia, 1999).
A baianidade é uma das formas de construir, representar e tornar visível a cidade que, no contexto da cultura de consumo, torna-se mercadoria no vasto e competitivo mercado global. É uma imagem valiosa no campo do turismo.
Para amplificar a imagem da cidade da Bahia no campo da publicidade é fundamental multiplicar e diversificar textos e imagens. Investigar e identificar nichos da cultura popular/cotidiana e assim valorizar e visibilizar a diversidade de nosso estilo de vida. Através de uma rede de informações e ações estratégicas é possível recriar imagens do real, da vida real e espelhar no mercado publicitário a produção, a circulação e o consumo da nossa exuberante produção cultural.
Goli Guerreiro

Goli Guerreiro
Colunista
Pós-doutora em antropologia, curadora e escritora. Tem 6 livros publicados. Trabalha sobre repertórios culturais contemporâneos em diversos formatos: palestras, oficinas, mostras iconográficas, consultoria e roteiros para audiovisual.
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