Menos IA, mais IE
Recentemente, em uma conversa com Pedro Dornas, profissional e aluno da ESPM, falávamos sobre a quantidade de encontros, cursos, palestras e debates que vêm sendo realizados para discutir Inteligência Artificial. Em determinado momento, surgiu uma provocação simples: talvez esteja na hora de falarmos um pouco menos de IA e muito mais de IE.
Inteligência Emocional.
Não se trata, evidentemente, de diminuir a importância da Inteligência Artificial. Seria impossível ignorar uma transformação que já atravessa a comunicação, os negócios, a educação, o consumo e praticamente todas as dimensões da nossa vida. A questão é outra: enquanto desenvolvemos máquinas cada vez mais capazes de interpretar dados, gerar conteúdos, antecipar comportamentos e responder perguntas, estamos desenvolvendo, na mesma velocidade, nossa capacidade de lidar com aquilo que sentimos?
Talvez esteja aí um dos grandes desafios do nosso tempo.
Estamos aprendendo a criar prompts melhores, mas será que estamos aprendendo a fazer perguntas melhores para nós mesmos?
Queremos respostas em segundos, mas continuamos tendo dificuldade para sustentar conversas difíceis. Automatizamos tarefas, otimizamos agendas, resumimos reuniões e produzimos mais. Mas ainda precisamos aprender a ouvir, acolher, discordar, pedir desculpas, estabelecer limites, reconhecer vulnerabilidades e compreender o outro.
A tecnologia ganhou velocidade. O humano continua precisando de tempo.
E talvez não exista problema algum nisso.
A Inteligência Emocional nos convida justamente a compreender que nem tudo precisa ser acelerado. Há processos que exigem presença. Relações que precisam de cuidado. Decisões que pedem silêncio. Sentimentos que não cabem em comandos. E respostas que nenhum algoritmo será capaz de construir por nós.
Mas há ainda uma perspectiva que me interessa bastante: e se, em vez de colocarmos IA e IE em lados opostos, aprendêssemos a aproximá-las?
A própria Inteligência Artificial pode ser utilizada como instrumento de reflexão. Pode nos ajudar a organizar pensamentos antes de uma conversa importante, apresentar outras perspectivas para um conflito, estruturar perguntas, identificar padrões naquilo que escrevemos e até nos provocar a enxergar uma situação por ângulos diferentes.
Mas existe uma diferença fundamental.
A IA pode ajudar a elaborar uma mensagem. Quem precisa sentir o impacto dela somos nós.
Pode sugerir perguntas. Quem precisa ter coragem para respondê-las somos nós.
Pode organizar caminhos. Quem precisa escolher por onde seguir continuamos sendo nós.
Por isso, talvez o futuro não seja uma disputa entre inteligência humana e artificial. Talvez seja a busca por uma convivência mais consciente entre diferentes inteligências.
Quanto mais capacidade tecnológica tivermos, maior deverá ser nossa responsabilidade emocional.
Nas empresas, isso significa entender que transformação digital sem transformação humana é incompleta. Não adianta investir apenas em ferramentas se as pessoas não conseguem conversar, confiar umas nas outras, lidar com frustrações ou construir ambientes psicologicamente mais acolhedores.
Na educação, significa preparar profissionais não apenas para utilizar novas tecnologias, mas para desenvolver repertório, senso crítico, empatia e capacidade de convivência.
E, na vida, talvez signifique uma coisa ainda mais simples: não permitir que a facilidade de obter respostas diminua nossa disposição para fazer perguntas a nós mesmos.
A Inteligência Artificial certamente continuará avançando — e precisamos avançar com ela. Mas espero que, nesse movimento, a gente não esqueça de desenvolver a inteligência que nos ajuda a reconhecer o que sentimos, compreender quem está ao nosso lado e escolher como queremos viver.
Porque podemos ter cada vez mais tecnologia para nos ajudar a fazer.
Mas ainda precisaremos de Inteligência Emocional para entender por que, para quem e de que maneira queremos fazer.
Então, diante de tantos encontros sobre IA, fica a provocação que nasceu daquela conversa com Pedro Dornas:
Que tal menos IA e mais IE?
Ou, quem sabe, algo ainda melhor:
mais IA a serviço de uma IE cada vez mais humana.
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O conteúdo e opinião publicados neste artigo são de inteira responsabilidade do autor ou autora.
Diego Oliveira
Colunista
Diego Oliveira é pensador em marketing, professor e coordenador acadêmico da ESPM, além de doutorando em Comportamento do Consumidor. Colunista do Meio & Mensagem, Let’s Go e ABMP, e palestrante na ETD, pesquisa e debate temas como Brasil Plural, protagonismo digital e comunicação em tempos de incerteza.
Criador dos movimentos Isokan e Qual é o seu Plano A?, além do projeto #DiegoQueDisse, acredita nos múltiplos Brasis — diversos, potentes e em movimento — e conecta inovação, diversidade e impacto social para transformar dados em cultura, decisões mais humanas e caminhos de futuro.
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