Moraes Moreira e o problema do meio

Na Bahia é preciso saber chegar. Aqui é melhor pedir licença aos orixás, pedir para que abram seus caminhos, principalmente quando se tratar de algo importante a realizar. Moraes Moreira me chamou certa feita para junto com ele organizar o seu trio que sairia domingo, segunda e terça de carnaval. Como bom baiano, dias antes da saída, ele foi ao Gantois saber das coisas e da festa. Fui junto, principalmente com medo de algo dar errado e ouvir a célebre frase : tá vendo, você devia ter ido comigo, fui. Aproveitei para tomar um passe de descarrego, me preparando para a empreitada, enquanto Moraes jogava os búzios com mãe Cleuza. Já de volta para o hotel perguntei a ele o que mãe Cleuza tinha dito e ele me respondeu que ela tinha falado que ia ser um grande carnaval, um dos melhores que ele faria, apenas teria um problema no meio. Fiquei com aquilo na cabeça. Domingo saímos e foi muito bom , muito bom mesmo. Moraes se saiu excelentemente bem, som bom , trio no horário, tudo nos conforme. Na segunda almoçamos juntos, comentamos a primeira saída e ficamos de nos encontrar as 8 da noite no hotel, o trio sairia as 10. Pouco antes do horário marcado o telefone tocou em minha casa, era a produção dizendo que Moraes tinha perdido a voz e o trio não iria sair naquela noite, um médico já estava a caminho, para medica-lo. Era o problema do meio que apareceu no jogo. Foi complicado não ter saído, mas só restava esperar a última noite e o grande carnaval que mãe Cleuza tinha previsto e também que a injeção aplicada pelo médico desse certo. Na terça tudo se confirmou. Moraes saiu as 10 horas em ponto em direção a Castro Alves e só parou de tocar a 1 hora da tarde do outro dia, com a banda exaurida e arrastando os últimos foliões até o Largo dos Aflitos. Nunca ninguém tinha saído da Praça depois de Dodô e Osmar. Nesse dia Moraes dobrou o homem do pau elétrico e após um duelo musical de horas e horas com Armandinho, debaixo de um sol de rachar, o velho Osmar capitulou :
“ Moreira, você quer matar o velho, tô seguindo!”
Pela primeira vez a tradição foi quebrada e Moraes Moreira encerrou o carnaval naquele ano. Coisas do orixás. Moreira estava elétrico, não quis ir nem para o hotel descansar da maratona, saltamos do trio, ele dispensou o motorista e fomos comer um meninico de carneiro e uma feijoada ali mesmo na Carlos Gomes. Na volta não conseguimos táxi e vimos um Kombi cortada, com carroceria de camionete repleta de verduras e demos uma boa grana para o cara nos levar até o hotel . Foi engraçado ver as cara de espanto das pessoas, com a gente chegando naquele hotel 5 estrelas, os dois, literalmente em cima de mangas, abóboras, batatas, aipim etc .Grande carnaval!

Sérgio Siqueira
Colunista
Formado em Administração de Empresas pela Ufba com especialização em programação visual , marketing institucional , propaganda e eventos. Gerente de Criação e Produção e desenvolvimento de projetos e campanhas institucionais e culturais da Rede Bahia.
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