Mulheres, marcas e mentes: o poder de influenciar com propósito

mar/2026

Falar sobre mulheres no mês de março pode parecer previsível. Mas talvez o verdadeiro desafio não esteja em falar — e sim em como falamos. Durante anos, o discurso sobre liderança feminina foi embalado em narrativas inspiradoras, quase heroicas. Mulheres fortes, resilientes, multitarefas. Tudo isso é verdade. Mas também é insuficiente.

Porque, por trás dessa construção simbólica, existe uma realidade mais complexa: mulheres que lideram, influenciam e transformam não apenas porque superam barreiras, mas porque enxergam o mundo de forma diferente. E essa diferença, longe de ser apenas uma pauta social, é um ativo estratégico para marcas e negócios.

O marketing, historicamente, ajudou a construir estereótipos sobre o feminino. Da dona de casa perfeita à mulher independente e bem-sucedida, sempre houve uma tentativa de traduzir o que significa ser mulher — quase sempre de forma simplificada. Hoje, esse modelo não se sustenta mais. A mulher contemporânea não cabe em uma persona única, nem em um briefing previsível. Ela é múltipla. E, justamente por isso, exige marcas mais inteligentes, mais sensíveis e mais verdadeiras.

O poder de influência das mulheres não está apenas nos números — embora eles sejam expressivos. Está na forma como interpretam, conectam e ressignificam o mundo ao seu redor. Mulheres influenciam decisões de consumo, cultura organizacional, linguagem de marca e, principalmente, o significado das relações.

Mas há um ponto que ainda precisa ser discutido com mais profundidade: não basta colocar mulheres em campanhas, é preciso colocá-las nas decisões. A presença feminina não pode ser apenas estética; ela precisa ser estrutural. Marcas que entendem isso deixam de falar para mulheres e passam a construir com elas. Existe uma diferença importante entre representatividade e protagonismo. A primeira mostra. A segunda transforma.

Quando mulheres ocupam espaços de liderança — e aqui falamos não apenas de cargos, mas de voz ativa — o impacto vai além da organização. Ele se reflete na forma como as empresas se posicionam, como se comunicam e como se relacionam com a sociedade. Há mais escuta, mais nuance, mais contexto. E isso, em um mundo saturado de mensagens superficiais, é um diferencial competitivo poderoso.

A influência feminina também traz um elemento essencial para o marketing contemporâneo: a empatia. Não aquela empatia performática, de campanhas emocionais e discursos bem ensaiados, mas a empatia prática, que considera o outro em sua complexidade. Que entende que pessoas não são apenas consumidores, mas histórias em movimento. E talvez seja esse o maior aprendizado: mulheres não influenciam apenas o que compramos, mas como pensamos, como sentimos e como nos conectamos.

Para as marcas, isso representa uma mudança de paradigma. Não se trata mais de comunicar atributos, mas de construir relações. Não se trata de convencer, mas de envolver. Não se trata de falar mais alto, mas de falar com mais sentido.

E isso exige coragem.

Coragem para rever estruturas, para abrir espaço, para questionar modelos que sempre funcionaram — mas que já não fazem mais sentido. Coragem para sair do discurso e entrar na prática. Porque o público percebe. Ele sente quando há verdade. E, no caso das mulheres, essa percepção é ainda mais apurada. Talvez porque, historicamente, tenham aprendido a ler nas entrelinhas.

No fim das contas, falar sobre mulheres, marcas e mentes é falar sobre o futuro. Um futuro que será cada vez mais diverso, mais complexo e, ao mesmo tempo, mais humano. E nesse futuro, influenciar com propósito não será um diferencial. Será o mínimo esperado.

Porque quando mulheres ocupam espaços de decisão, o impacto não é apenas no que é dito — mas no que passa a ser possível.

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O conteúdo e opinião publicados neste artigo são de inteira responsabilidade do autor ou autora.

Erika Buzo Martins

Erika Buzo Martins

Colunista

 Doutora em Comportamento do Consumidor | Estratégia, Educação e Negócios | Formação de líderes para um mercado orientado por dados e pessoas | Palestrante

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