Na diáspora caribenha
Port of Spain é uma cidade intrigante. Em pleno mar do Caribe, a capital da ilha Trinidad vira as costas para o turismo massivo, embora exiba um patrimônio arquitetônico invejável e realize um dos mais vibrantes carnavais caribenhos embalado pelo calypso e pela soca. Os trinidadianos se orgulham de ter inventado as steels bands – orquestras percussivas modeladas em barris de petróleo (o ouro negro da ilha). A cidade habitada majoritariamente por negros e indianos guarda as marcas da longa colonização inglesa reveladas nos amplos parques de verde denso e abundante e sobretudo no casario Ginger Bread, estilo arquitetônico da Era Vitoriana. É interessante caminhar observando o desenho das casas em madeira que confere uma elegância antiga às suas ruas silenciosas por onde circulam luxuosos carros japoneses (será que eles têm buzina?). Mas o cenário imprevisível não esconde a atmosfera caribenha. O culto a Bob Marley impressiona. São muitos os rastafaris que mantêm longos dreadlocks. A música jamaicana e o reggae produzido em Trinidad são a trilha dos táxis, dos bares, clubes noturnos, e é impossível não assistir às altas doses de clipes de Bob exibidos nos vários programas de música na TV. É fácil encontrar lojas só com produtos com a marca Bob Marley como incensos, cadernos e finas boinas. No centro da cidade, discotecas ambulantes com estantes e auto-falantes oferecem uma variedade de compilações de música produzida no Caribe e na América do Norte. Como resistir às audições promovidas nas calçadas pelos sofisticados vendedores de discos que compilam as pérolas do ragga, funk, soca, ska, gospel e, claro, reggae music ? Mas o espaço privilegiado da celebração ao mundo negro é o Emancipation Celebration Festival que acontece em agosto e reúne artistas, políticos e ativistas de vários países. É o momento de ver os negros (38%) nas ruas para rememorar a história de sua emancipação política e social, portando roupas e turbantes afro e dançando ao som do calypso. Eles vêm de todas as áreas da cidade, dos bairros ricos e dos morros (nem tão pobres) que contornam Port of Spain. Velhos músicos de Laventille, morro próximo ao centro, berço do calypso, participam da parada, mostrando a potência do estilo até chegar ao Stadium par ver os shows internacionais enquanto pessoas discutem pautas como a tensão com a “raça indiana” e a posição das minorias branca e chinesa. Cotas? Não se discute. Há educação pública para todos até a universidade. Os negros estão em posição de supremacia política e igualdade socioeconômica com a maioria indiana (43%).
Para a historiadora e designer Lesley Noel, “O Caribe é o melhor dos mundos: sem a pobreza da África e as tensões raciais dos EUA”. Creio não ser possível generalizar a posição dos negros em todo o Caribe, mas sem dúvida Trinidad é uma interessante referência no mundo da diáspora.

Goli Guerreiro
Colunista
Pós-doutora em antropologia, curadora e escritora. Tem 6 livros publicados. Trabalha sobre repertórios culturais contemporâneos em diversos formatos: palestras, oficinas, mostras iconográficas, consultoria e roteiros para audiovisual.
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