Narcisos digitais
Nas últimas décadas a humanidade passou a conjugar o verbo conectar e compartilhar com outra semântica. Compartilhamos e nos conectamos todos os dias na internet, teia que se tornou a principal plataforma de relacionamento, de business, de comunicação, de aprendizagem e de entretenimento. Fluem avassaladoramente na rede os elementos da cultura digital que afetam toda a vida social, cultural e psíquica dos seres humanos, para o bem e para o mal. E fluem os egos famintos por twittes, fotos, selfies, likes e posts.
Está em curso uma epidemia de narcisismo e o smartphone virou o novo lago de Narciso.
A Nuvem de Zuckerberg paira sobre nós e nos empodera, fascina, desafia, manipula e armazena dados. Democratiza e facilita a criação, a publicação, provoca intercâmbios, mas por outro lado, empanturra alucinadamente nossa vida com imagens e palavras das quais não conseguimos extrair mais sentido com os velhos dispositivos cognitivos. É uma quantidade desproporcional de informações e não há como analisar, criticar, filtrar, não há tempo para refletir, nossos “sensores e capacidade biológica e cognitiva são inelásticos”, alerta Martha Gabriel (1), evoluem lentamente, ao contrário desta avalanche de dados que nos carrega rio abaixo.
As mídias digitais passaram a escancarar uma surpreendente variedade de carências humanas. Aos poucos ela se transformou em plataforma de narcisos, incentivando o culto a si mesmo, a overdose de imagens e iludindo os seguidores de ídolos com um universo paralelo, virtual e infantilizado.
O narcisismo não é um vilão em si mesmo, é um elemento fundamental para a constituição psíquica, uma etapa do desenvolvimento pessoal extremamente valiosa cujas inscrições servirão de lastro para a autoestima, o amor-próprio, a autoconfiança. O lado patológico do narcisismo é quando se observa um ego muito excessivo, frequente, constante e centralizador.
Otto Rank, psicanalista e colega de Freud, via os narcisistas como aqueles que sentem “um apetite enorme e constante de serem admirados, que revelam sentimentos de superioridade, uma predisposição para a exploração, impulsividade e ausência de empatia e, talvez mais importante que tudo, uma agressividade retaliatória quando sentem que o seu ego inflacionado é, de alguma forma, ameaçado”.
Estariam as redes sociais deflagrando e reforçando uma epidemia de narcisismo? Somente avaliando os títulos de livros de especialistas em psicologia nos EUA já podemos comprovar que o tema é preocupante. Vejamos alguns deles: “Virtualmente você: os perigosos poderes da e-personalidade”, de Elias Abajoude, um psiquiatria de Stanford; “O self acossado: um modelo terapêutico para diferenciação”, do psicólogo clínico Robert Firestone; “A vida do Eu: a nova cultura do narcisismo”, de Anne Mane. “Geração Eu”, de W. Keith Campbell e o “O narcisismo epidêmico: vivendo na era do reconhecimento”, de Jean Twenge e W. Keith Campbell. Todos destacam o avanço do narcisismo.
Os autores do último livro avaliaram 37 mil estudantes universitários e se surpreenderam com o aumento dos traços de personalidade narcísica (“pessoas abusivamente privilegiadas, obcecadas por si mesmas e mal preparadas para a vida real”) que, coincidentemente, cresceram no ritmo similar ao das taxas da epidemia de obesidade, razão pela qual passaram a tratar o narcisismo como uma doença epidêmica de “egos demasiado gordos”.
O sobrepeso do ego dos narcisistas digitais acarreta implicações psicológicas e éticas de uma verdadeira obsessão com a autoimagem, com se a vida fosse passada num palco e sua narrativa pudesse ser editada, photoshopada enquanto os outros não passam de meros seguidores.
Os recorrentes atentados com arma de fogo perpetrados em escolas nos EUA por jovens com dolorosas feridas narcísicas incentivaram as pesquisas sobre o tema. O Manual de Diagnóstico e Estatística de Distúrbios Mentais dos EUA aponta que os narcisistas procuram os locais ideais nos quais podem ganhar a sua tão necessária audiência. E que audiência é mais propícia para aplaudir os narcisistas? Ora, as plataformas online: o melhor palco para quem sente urgência contínua de se autopromover, com a publicação frequente de selfies, baladas, viagens, pratos do almoço e os feitos épicos dos youtubers e influenciadores digitais. Como vemos, Narciso só gosta mesmo é de espelhos.
(1. Gabriel, Martha. Você, eu e os robôs – pequeno manual do mundo digital. São Paulo: Atlas, 2018. Pg.31-33)

Carlos Linhares
Colunista
Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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