O gosto e desgosto da mídia
Enxovalhar a mídia é uma das propostas e atitudes recorrentes dos internautas nas redes sociais, em especial no facebook. Parte-se do princípio de que se eu não gosto disso e não concordo com isso é por que o veículo que informa, ou, emite opinião, através de seus articulistas, faz parte de uma suposta conspiração, quando não é incompetente e outras adjetivações atribuídas. Não se assimila a informação pelo que ela diz, mas, através do filtro de “me agrada”, ou, “me incomoda”.
É que somos treinados para escolher e aderir a uma opinião na prateleira de manchetes que sites e blogs nos oferecem, renovadas a cada minuto. Amanhã a prateleira estará oferecendo-nos outra mercadoria e então uns irão adquirir o produto por afinidade da marca (simpatizo com uma suposta ideologia), enquanto outros optarão por ler o rótulo, inclusive a validade, para opinar com maior conhecimento de causa. O problema é que milhões de brasileiros não sabem ler o rótulo, que dirá interpretá-lo.
E esse quadro de “a mídia somos nós e o resto que se dane” que favorece essa atitude de depreciarmos a mídia, o equivalente de “a mídia não presta, salvo aquela que me agrada”. Em que pese esse pendor, ainda assim, o Brasil confia e muito nos seus veículos de comunicação, conforme recente pesquisa, realizada pelo Instituto Reuters para a Universidade de Oxford, com uma amostra de 70 mil consumidores de notícias em 36 países. O Brasil obteve um honroso segundo lugar, perdendo apenas para a Finlândia. A instituição imprensa brasileira ficou muito bem nessa fita do ranking de credibilidade.
Há contradição no resultado dessa enquete? Se confiamos tanto assim na mídia, por que falamos mal dela? Acho que não. Uma coisa é uma coisa. Outra coisa é outra coisa. Confiamos sim, mas isso não exclui a nossa afinidade, no consumo do conteúdo, com quem nos fornece o que queremos ver e ouvir. As redes sociais nos colocaram nessa armadilha ao facultar-nos a escolha de nossos seguidores e a possibilidade de excluí-los a qualquer momento. Formamos opinião através dos que pensam como nós queremos que pensem.
Avaliações aparte, que seria dos que disseminam o ódio nas redes sociais sem a mídia? É dela que se alimentam e sem ela não teriam como expressar seus sentimentos, em especial em relação à política, um campo fértil para as manifestações menos racionais e mais emotivas. Não atentamos para isso, mas, provavelmente, quando enxovalhamos a mídia, é de nós mesmos e de nossos piores sentimentos que nós queremos livrar. Os psicanalistas explicariam isso melhor.

Nelson Cadena
Colunista
Escritor, jornalista e publicitário.
Mais artigos
O preço das promessas e o valor do equilíbrio
Há um momento na vida em que a gente percebe que não dá mais pra se deixar seduzir por promessas. Promessas de reconhecimento, de sucesso, de amor, de pertencimento. Elas vêm embrulhadas em discursos bonitos, em convites empolgados, em projetos que parecem...
Papo reto sobre neuromarketing
Vivemos em um mundo supersaturado de informações e produtos. Conhecer as respostas cerebrais permite criar estratégias de comunicação mais inteligentes e que realmente ressoam no consumidor, destacando-se em meio ao ruído. A lealdade atinge nível mínimo (3%) e os...
Atenção: o novo ouro do marketing (e o novo caos da mente)
Você já percebeu que a nossa atenção está desaparecendo em câmera lenta?A cada scroll, um pedaço do nosso foco se dissolve em meio a uma avalanche de estímulos. Vivemos na era da hiperconectividade e, também na era da hiperdistração. E o mais curioso é que, enquanto...
WOW Moments: o poder do encantamento na experiência
Em um mundo cada vez mais saturado de informações, produtos e serviços, conquistar a atenção das pessoas é apenas o primeiro passo. O verdadeiro desafio está em gerar impacto, em criar lembranças que ultrapassem a lógica da satisfação funcional e toquem a emoção. É...
A nova batalha do voto: por que a percepção do “rumo certo” transcende a aprovação do líder
O Brasil se aproxima de 2026 com um cenário político marcado por uma tensão estratégica entre percepção e aprovação. De um lado, o presidente Lula mantém uma base sólida de apoio pessoal, resultado de seu capital simbólico, histórico político e ações recentes que...
Brasil acelerado, Portugal paciente (?): Duas formas de viver o digital
Mudar de país é também mudar de perspectiva. Quando cheguei a Portugal, descobri que aquilo que parecia óbvio para mim, vindo do mercado brasileiro de comunicação, não era tão evidente por aqui. O digital, que no Brasil é quase um requisito de sobrevivência para...
junte-se ao mercado
