O mercado publicitário no labirinto do Minotauro

mar/2017

As águas de março no Brasil de 2017 andam turvas e opacas, suas margens se encontram tão devastadas e tristes quanto as do Rio Doce, após o desastre em Mariana. Causas múltiplas, vem de anos de governos sem ética e possuídos de delírios de grandeza. Resultou na atual crise política, econômica e social, no mal estar de um labirinto kafkiano de delações, desvios de dinheiro público, desemprego e drama coletivo.

As águas de março da recessão de 2017 desafiam a todas as lideranças e profissionais. Desafiam a você, profissional do mercado publicitário. Como encontrar saída em meio à turbulência? Como suscitar  desejo e consumo diante de um mercado descapitalizado? As águas de março trazem o quadro trágico de empresas e lojas fechando, desemprego em alta e consumo em baixa, crédito retraído, varejo atônito, PIB minguando, endividamento das famílias, menor poder de compra e suspensão de novos investimentos. Como seduzir quando o medo de investir e ousar se instala e drena o desejo?

Perdidos neste labirinto, profissionais e gestores de negócios sofrem de desorientação e confusão. Reza a lenda que havia um labirinto na ilha de Creta, um lugar construído para abrigar umas das feras mais terríveis do mundo antigo: o Minotauro, monstro com corpo de homem, cabeça de touro e dentes de leão. O Rei Egeu, de Atenas, tinha uma dívida de guerra com o Rei Minos, de Creta, que o forçava a mandar 14 jovens por ano para serem oferecidos em sacrifício dentro do labirinto. Para aplacar a fome do Minotauro, Teseu, filho de Egeu, embarcou certa vez entre os 14 jovens com o intuito de matar o Minotauro. Em Creta, conseguiu convencer o Rei Minos a aceitar o acordo: libertar Atenas da obrigação caso conseguisse matar a fera.

Na véspera da empreitada, Ariadne, filha de Minos, presenteia a Teseu um punhal e um carretel de fios de ouro.  Uma mulher sagaz. Além da lâmina e da coragem, seria necessário pensar uma estratégia de retorno. Afinal, mesmo que matasse a fera, se não houver retorno, não se fez  história.

Ariadne e seus fios simbolizam, para muitos, a Filosofia. Um pensamento reflexivo, que dá sentido e significado aos atos. Cairia bem aos especialistas em comunicação e publicidade pensar em estratégias de ida e, sobretudo, de volta, de certas empreitadas. A Teseu ela deixou claro que não bastava a potência e a força para matar o monstro.

Os fios de Ariadne simbolizam a consciência dos riscos presentes no labirinto para superar as sombras, as curvas constantes e desorientadoras, os desvios escuros, as passagens falsas e as vias sem saídas. Como os vãos palacianos de Brasília, a criminalidade límpida dos colarinhos e guardanapos, os conchavos de sempre.

Mas ela não parece ter sido escutada por boa parte dos donos do poder: representantes notáveis da política brasileira, empresários de peso, doleiros de lavanderia e publicitários da Máfia entregaram o país ao Minotauro. Sem planejamento de volta, o Rio Doce foi devastado, a Copa e as Olimpíadas só drenaram verba, a Petrobrás sofreu escalpo, o investimento em obras faraônicas na África e alhures não tem volta. A economia sangra e 12 milhões de trabalhadores erram no labirinto do desemprego.

Atordoado, dentro do labirinto, Teseu constata uma das maiores armadilhas daquela arquitetura de morte: a repetição. O retorno ao mesmo ponto, a reprodução de padrões, a neurose e a compulsão de voltar muitas vezes ao mesmo lugar por onde já se passou, adentrando cada vez mais no Labirinto do esgotamento, do cansaço e do deja-vú. Repetir modelos de negócios, esquemas, pactos sórdidos, atos secretos, tratar o mercado como um rebanho de otários, mero gado, sem opinião, sem reconhecer a dignidade de clientes.

Mas Teseu seguiu à risca a advertência de Ariadne e tão logo os guardas o deixaram na entrada, atou a ponta do fio a uma pedra e partiu, segurando-o firmemente, atento aos sinais da presença do monstro. E se depara com uma imensa pilha de ossos e percebe o Minotauro perto, arfando como um touro e, pior, vindo em sua direção. A luta épica entre Teseu e o Minotauro é fantástica: no primeiro golpe, o jovem herói perfura os olhos da besta e o Minotauro uiva de dor e tateia, cego, se debatendo e mordendo as paredes com seus dentes de leão. O Minotauro passa entra em estado de labirinto: perdido e sem direção.

E  Teseu tira proveito disto, se esgueira por trás e desfecha um golpe rápido nas pernas da besta, levando-a estrondosamente ao chão, e a apunhala por três vezes. Ajoelha-se, ao final, para agradecer aos deuses. Degola o Minotauro e carrega consigo sua cabeça, tornada troféu. Sai da caverna exaurido. Se não fossem os fios de Ariadne, sucumbiria no Labirinto. E não haveria história para contar. Desmaia de cansaço quando atinge o portal, é carregado pelos guardas.

Qual serão os fios de Ariadne do mercado publicitário? Como ele pode sair da caverna das incertezas e ameaças? Talvez seja hora de retomar os fios da história, ouvir os anciãos da tribo. E agradecer às Ariadnes. Talvez seja hora de co-memorar. Fazer memória de como os profissionais legendários deste mercado entraram e saíram do labirinto, deixando legado e história. A lenda reza que Teseu foi aclamado como herói, o Rei Mino anistia a Atenas dos sacrifícios, e abençoa seu casamento com Ariadne.

Mitos gregos são fármacos. Remédios eficazes que devolvem lucidez. Servem para cada um projetar seus sonhos, transcender a dureza do real e sua tragédia. Despertam forças internas para se retomar a potência de viver o drama destes dias em que as águas de março no Brasil de 2017 andam turvas e opacas, e suas margens estão tão devastadas e tristes…

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.

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