O seu relatório de mídia conta toda a verdade?
Discurso bonito vs resultado real
O mercado programático cresceu rápido. Rápido demais para que as regras acompanhassem o ritmo. E isso criou um problema que afeta diretamente quem investe em mídia: é possível gastar uma verba significativa em publicidade digital e ter muito pouca clareza sobre onde os anúncios foram realmente exibidos, para quem, em qual contexto e com qual resultado.
Isso não é exagero, é uma realidade do ecossistema de mídia digital. Que pode ser empacotado em diferentes discursos, ter métricas sendo destacadas, mas se problematizadas ou colocadas em contexto, podem mostrar resultados frágeis para serem defendidos.
O crescimento veio antes da governança
Quando a compra de mídia digital se automatizou, a promessa era bonita e sedutora: mais eficiência, mais precisão, menos desperdício. E em muitos aspectos, essa promessa foi cumprida. A tecnologia evoluiu, os leilões ficaram mais sofisticados e a segmentação ganhou profundidade. Indo além, muito do discurso inicial de toda essa automatização, talvez nem fosse tão executável há 10/15 anos. Mas hoje, a evolução foi exponencial, e o discurso bonito pode, sim, ser executado com excelência.
O ecossistema cresceu em camadas. Cada novo intermediário adicionou sua própria lógica, suas próprias métricas, suas próprias definições. O que uma plataforma chama de “visualização” pode ser diferente do que outra plataforma entende pelo mesmo termo. O que aparece no relatório como alcance pode incluir audiências que se sobrepõem entre canais. O que é vendido como inventário premium pode estar misturado com espaços de qualidade bem inferior. E vale a provocação: o que é inventário premium, afinal? É a qualidade editorial do conteúdo ao redor do anúncio? É a URL onde ele aparece? É a quantidade de espaços publicitários visíveis na página? É o perfil da audiência? Cada plataforma tem sua própria resposta. E quando cada um define premium do seu jeito, o termo deixa de significar alguma coisa e passa a ser apenas uma embalagem mais sofisticada para produtos que, no fundo, podem ser muito parecidos.
O resultado prático é que o anunciante passou a depender de relatórios que raramente conversam entre si e de métricas que nem sempre representam o que parecem representar.
A mudança está em curso
Nos últimos meses, algo relevante está acontecendo no mercado global. Associações do setor, grupos de agências e plataformas de tecnologia estão, pela primeira vez em muito tempo, sentando juntos para discutir padrões comuns. A motivação não é necessariamente altruísta: é que o modelo atual está gerando desconfiança, não está se sustentando e a desconfiança afasta investimento, e isso impacta em toda a cadeia.
A publicidade programática movimenta bilhões de dólares todos os dias, é um modelo consolidado. Mas existem problemas operacionais, e, no geral, as pessoas responsáveis por isso não estão sentadas juntas para encontrar caminhos para resolverem essas questões.
É um movimento em fase inicial e com discussões sobre quais padrões adotar, quem lidera o processo e como garantir que as mudanças sejam de fato implementadas. Mas é muito positivo a conversa estar acontecendo, alguma mudança irá ocorrer e isso trará mais confiança para o setor.
O que isso significa para quem investe em mídia
Para anunciantes e profissionais de mídia, esse momento tem uma implicação direta: as perguntas que você faz aos seus parceiros precisam ser mais precisas.
Não basta receber um relatório com números de impressões e cliques. Vale perguntar onde especificamente o anúncio foi veiculado. Em quais ambientes. Com qual critério de qualidade. Como a audiência foi definida e verificada. Se o resultado reportado considera sobreposição entre canais. E o que muda na estratégia caso alguma dessas respostas seja insatisfatória.
Essas perguntas existiam antes. A diferença é que agora o mercado está criando as condições para que elas tenham respostas mais honestas.
Do lado de quem vende, ficar num movimento passivo, esperando ser questionado para correr atrás das respostas será fatal. O movimento tem que ser ativo, algumas respostas precisam virar padrão de entrega.
Transparência não é detalhe técnico
É confortável tratar esse tema como uma questão de bastidores, relevante apenas para quem opera a tecnologia. Mas a transparência no ecossistema de mídia tem que sair da sombra do discurso comercial bonito e ser tratada como pauta natural.
Quando os padrões são claros e compartilhados, o anunciante consegue comparar resultados entre plataformas com mais confiança. Consegue identificar onde a verba está gerando melhor resultado e onde está sendo desperdiçada. Consegue exigir mais dos parceiros e tomar decisões melhores com os dados que tem.
Quando os padrões são opacos ou fragmentados, toda essa capacidade se perde e o investimento em mídia vira um exercício de confiança cega.
O mercado está caminhando para um lugar melhor. Devagar, com disputas pelo caminho, mas caminhando. Educação e alinhamento de expectativas sempre foram fundamentais, e agora, ainda mais.
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Fábio Almeida
Colunista
Managing Director, Biggie
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