Por uma antropologia da viagem
Comecei a reparar em conversas informais com brasileiros com quem me deparei na Europa, em viagem recente, em lojas, cafés e metrôs, que havia um grupo sem entusiasmo e indiferente aos valores europeus, apenas focado em consumir souvenires, cumprir roteiros óbvios e comparar os preços de roupas, aparelhos celulares e perfumes com os de Orlando, na Flórida, onde é tudo mais barato. Vibravam de contentamento com os tênis Adidas reluzentes nos seus pés, me recomendando o outlet da grife. Onde aprenderam a olhar assim para as paisagens? Será que eles se tornaram reféns de excursões e pacotes e terminaram com o olhar empacotado?
Espalhou-se pelo mundo este modelo de viagem que torna o turista submisso e obediente à visão pré-moldada pelo marketing das operadoras. Recorta-se o que deve ser visto e reconhecido nas culturas e as hordas de visitantes, ovelhas dóceis, se contentam em fotografar os clichês e a si mesmos nos espelhos. Talvez por isso haja tanta gente que não faz a viagem, não sai de seu universo cultural, só passeia fisicamente, carregando o próprio mundo impresso na retina. Como então se surpreender com o outro lugar se não se disponibiliza o olhar para o diferente? Sem espaço para compreender o novo, o exótico e o original, como haverá admiração e encantamento com o outro mundo? O exótico pede uma ótica, como o nome diz. Felizmente, me deparei também com brasileiros antenados e ávidos pelo diferente, gente disposta a observar o lado implícito da paisagem.
E assim fui anotando, como etnógrafo de viagem, num IPad transformado em caderno de campo, as respostas dos dois grupos, aproveitando o tempo de trajetos de voos, salas de espera e demoradas viagens de trem. A sondagem surgiu nas férias, sem pretensão de rigor, menos investigação e mais divertimento, mas me ajudou a celebrar o meu rito de passagem e me permitir passar de turista a descobridor.
Contrastando com os turistas de olhar empacotado, os viajantes com antenas sensíveis se admiravam diante de panoramas sutis: viam os cartões postais invisíveis. Manifestavam surpresa, inveja e admiração com o bom funcionamento das instituições nas cidades visitadas. A qualidade da prestação dos serviços, valores morais e culturais, a solidez da democracia, a renda per capita alta, a igualdade social, o inacreditável “pleno emprego” em alguns países como Alemanha e República Checa, as universidades gratuitas, a consolidação das conquistas das mulheres e LGBTs, etc. Decidi discriminar as respostas em blocos de acordo com a frequência com que vinham sendo citadas. Assim nasceu o top five dos cartões postais invisíveis.
O campeão em admiração foi a gestão da segurança pública e a sensação de segurança, a confiança em poder circular de dia e de noite pelas ruas das cidades despreocupadamente. Uma conquista invejável e um luxo de valor incalculável para nós, brasileiros, cujas vidas acontecem em pleno faroeste. Atrelada à segurança, outra paisagem: o comércio de rua, o varejo no térreo dos edifícios, declarando que as trocas comerciais não precisam ficar reféns de shoppings centers.
O segundo cartão registra o conjunto de equipamentos que permite a mobilidade urbana, os diferentes “modais” de transporte público (metrôs, trens, VLT, ônibus, barcos), favorecendo o fluxo de pessoas e cargas nas grandes cidades. A capilaridade farta de linhas dos metrôs e o transporte sobre trilhos é alvo de admiração de muitos mochileiros bem como a conexão entre os modais. Aplausos para a elegância limpa e silenciosa dos VLT. Sem falar na forma positiva da cobrança com cartões magnéticos e a presença de estações de metrô nos aeroportos, tudo é motivo de admiração e boa inveja.
Outra paisagem assinalada: a admiração pela educação dos cidadãos europeus. O ensino de qualidade gratuito – ou financiado pelo governo em forma de empréstimo estudantil – permite que famílias tenham seus integrantes com educação e diploma superior. Um dado invisível, mas está no ar: todos foram alfabetizados, receberam noções de cálculo e – muita gente se refere ao fato – uma boa fatia maneja um outro idioma, além do próprio.
Outro cartão postal carregado de surpresa: a educação superior não torna ninguém superior e o trabalho doméstico e braçal contempla gente com ou sem diploma. Tarefas braçais não diminuem ninguém. O alto custo de serviços domésticos impõe uma atitude diferente da aprendida no nosso etos Casa Grande e Senzala: cada um limpa seu banheiro, leva sua roupa à lavanderia, cuida do quintal e vai à rua de transporte coletivo ou de bicicleta, usando ciclovias. Diferente da pátria dos doutores, na expressão irônica do antropólogo Roberto DaMatta.
Outro postal registra a admiração pelo valor atribuído à cultura e à conservação de acervos, museus, monumentos e locais históricos. Nós, brasileiros, que possuímos imensa capacidade de gerir festas e administrar rentáveis carnavais, podemos desenvolver também ações de marketing para promover cultura e incrementar o turismo. Resultado: museus, praças, monumentos que transbordam de usuários e visitantes, inclusive brasileiros que raramente frequentam estes locais, seja por medo de violência, desinformação ou indiferença.
Antes de viajar, que tal fazer uma limpeza nos olhos e uma faxina nas mochilas? Quem sabe se adotamos novas perspectivas no olhar e maior disponibilidade à surpresa a gente consiga flagrar o implícito e o invisível, onde vibra e pulsa o rosto da cultura?
Os cartões postais invisíveis existem, mas eles estão muito além dos pacotes.

Carlos Linhares
Colunista
Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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