Por uma antropologia da viagem

jun/2018

Comecei a reparar em conversas informais com brasileiros com quem me deparei na Europa, em viagem recente, em lojas, cafés e metrôs, que havia um grupo sem entusiasmo e indiferente aos valores europeus, apenas focado em consumir souvenires, cumprir roteiros óbvios e comparar os preços de roupas, aparelhos celulares e perfumes com os de Orlando, na Flórida, onde é tudo mais barato. Vibravam de contentamento com os tênis Adidas reluzentes nos seus pés, me recomendando o outlet da grife.  Onde aprenderam a olhar assim para as paisagens? Será que eles se tornaram reféns de excursões e pacotes e terminaram com o olhar empacotado?

Espalhou-se pelo mundo este modelo de viagem que torna o turista submisso e obediente à visão pré-moldada pelo marketing das operadoras. Recorta-se o que deve ser visto e reconhecido nas culturas e as hordas de visitantes, ovelhas dóceis, se contentam em fotografar os clichês e a si mesmos nos espelhos.  Talvez por isso haja tanta gente que não faz a viagem, não sai de seu universo cultural, só passeia fisicamente, carregando o próprio mundo impresso na retina. Como então se surpreender com o outro lugar se não se disponibiliza o olhar para o diferente? Sem espaço para compreender o novo, o exótico e o original, como haverá admiração e encantamento com o outro mundo? O exótico pede uma ótica, como o nome diz. Felizmente, me deparei também com brasileiros antenados e ávidos pelo diferente, gente disposta a observar o lado implícito da paisagem.

E assim fui anotando, como etnógrafo de viagem, num IPad transformado em caderno de campo, as respostas dos dois grupos, aproveitando o tempo de trajetos de voos, salas de espera e demoradas viagens de trem. A sondagem surgiu nas férias, sem pretensão de rigor, menos investigação e mais divertimento, mas me ajudou a celebrar o meu rito de passagem e me permitir passar de turista a descobridor.

Contrastando com os turistas de olhar empacotado, os viajantes com antenas sensíveis se admiravam diante de panoramas sutis: viam os cartões postais invisíveis. Manifestavam surpresa, inveja e admiração com o bom funcionamento das instituições nas cidades visitadas. A qualidade da prestação dos serviços, valores morais e culturais, a solidez da democracia, a renda per capita alta, a igualdade social, o inacreditável “pleno emprego” em alguns países como Alemanha e República Checa, as universidades gratuitas, a consolidação das conquistas das mulheres e LGBTs, etc. Decidi discriminar as respostas em blocos de acordo com a frequência com que vinham sendo citadas. Assim nasceu o top five dos cartões postais invisíveis.   

O campeão em admiração foi a gestão da segurança pública e a sensação de segurança, a confiança em poder circular de dia e de noite pelas ruas das cidades despreocupadamente. Uma conquista invejável e um luxo de valor incalculável para nós, brasileiros, cujas vidas acontecem em pleno faroeste. Atrelada à segurança, outra paisagem: o comércio de rua, o varejo no térreo dos edifícios, declarando que as trocas comerciais não precisam ficar reféns de shoppings centers.

O segundo cartão registra o conjunto de equipamentos que permite a mobilidade urbana, os diferentes “modais” de transporte público (metrôs, trens, VLT, ônibus, barcos), favorecendo o fluxo de pessoas e cargas nas grandes cidades. A capilaridade farta de linhas dos metrôs e o transporte sobre trilhos é alvo de admiração de muitos mochileiros bem como a conexão entre os modais. Aplausos para a elegância limpa e silenciosa dos VLT. Sem falar na forma positiva da cobrança com cartões magnéticos e a presença de estações de metrô nos aeroportos, tudo é motivo de admiração e boa inveja.

Outra paisagem assinalada: a admiração pela educação dos cidadãos europeus. O ensino de qualidade gratuito – ou financiado pelo governo em forma de empréstimo estudantil – permite que famílias tenham seus integrantes com educação e diploma superior. Um dado invisível, mas está no ar: todos foram alfabetizados, receberam noções de cálculo e – muita gente se refere ao fato – uma boa fatia maneja um outro idioma, além do próprio.

Outro cartão postal carregado de surpresa: a educação superior não torna ninguém superior e o trabalho doméstico e braçal contempla gente com ou sem diploma. Tarefas braçais não diminuem ninguém. O alto custo de serviços domésticos impõe uma atitude diferente da aprendida no nosso etos Casa Grande e Senzala: cada um  limpa seu banheiro, leva sua roupa à lavanderia, cuida do quintal e vai à rua de transporte coletivo ou de bicicleta, usando ciclovias. Diferente da pátria dos doutores, na expressão irônica do antropólogo Roberto DaMatta.

Outro postal registra a admiração pelo valor atribuído à cultura e à conservação de acervos, museus, monumentos e locais históricos. Nós, brasileiros, que possuímos imensa capacidade de gerir festas e administrar rentáveis carnavais, podemos desenvolver também ações de marketing para promover cultura e incrementar o turismo. Resultado: museus, praças, monumentos que transbordam de usuários e visitantes, inclusive brasileiros que raramente frequentam estes locais, seja por medo de violência, desinformação ou indiferença.

Antes de viajar, que tal fazer uma limpeza nos olhos e uma faxina nas mochilas? Quem sabe se adotamos novas perspectivas no olhar e maior disponibilidade à surpresa a gente consiga flagrar o implícito e o invisível, onde vibra e pulsa o rosto da cultura?

Os cartões postais invisíveis existem, mas eles estão muito além dos pacotes.

 

 

 

 

 

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.

Mais artigos

O que a Copa nos lembra sobre marcas que querem pertencer

A cada grande competição esportiva acontece algo fascinante: pessoas mudam suas rotinas, reorganizam agendas, vestem cores específicas, atravessam cidades, acordam mais cedo ou dormem mais tarde apenas para acompanhar um jogo. Do ponto de vista racional, isso nem...

ler mais

Jogada Ensaiada

Faltam apenas 20 dias para o início da Copa do Mundo. No entanto, quem caminha pelas ruas nota um cenário visivelmente mais acanhado do que em mundiais passados. Onde está aquela empolgação avassaladora de outrora?   Nos últimos anos, a tradicional camisa amarela...

ler mais

O Ritmo dos Dias e a Arte do Não

Ontem mesmo estávamos limpando o glitter do Carnaval, prometendo que o ano finalmente começaria. Piscou, e o cheiro de milho assado e fumaça de fogueira já anunciava o São João. Mais um piscar de olhos e as bandeirinhas mudam de cor, a Copa do Mundo bate à porta e a...

ler mais

junte-se ao mercado