Se aquele apartamento falasse
Fiquei hospedado por duas semanas em casa de um amigo, em Praga, a cidade dourada, fundada no século 10. Mora no prédio um casal idoso, seu Václav e dona Anna, ambos com 80 anos. Fui convidado, com amigos locais, para uma rodada de vinho quente, no aconchegante apartamento do velho casal. Confessei minha admiração pelo belo edifício deles. Era da última década do século 19, no estilo Art Nouveau. Após o elogio ao prédio escutei uma frase do seu Václav: – Foram muitas as bandeiras hasteadas neste prédio, disse ele, satisfeito com minha curiosidade.
– O senhor acredita que aqui já moraram famílias de oficiais da Gestapo? Pode imaginar estes belos prédios todos com suásticas hasteadas em sua fachada? E depois trocadas por bandeiras com foice e martelo? Imagine que neste apartamento moraram, no início do século 20, fieis súditos de sua alteza o Imperador. Está vendo aquela mancha na parede? Era uma Madona de porcelana. Foi arrancada com violência por um agente comunista da STB, a KGB tcheca, suporte da polícia Stalinista na velha Tchecoslováquia.
Foi didático, dividiu a história da Tchecoslováquia em capítulos, recordou a influência do Império Austro Húngaro e da dinastia dos Habsburgo, da intensa propaganda católica por meio de monumentos e símbolos sacros. Legaram a Praga uma fortuna em termos de arte, patrimônio arquitetônico para combater a Reforma Protestante.
Ao final da 1ª guerra mundial, em 1918, cai a monarquia e a Tchecoslováquia fica independente, republicana e livre, e passa a seguir audaciosamente uma Constituição inspirada na norte americana. Entre 1918 e 1938 viveram duas décadas de democracia plena, liberdades democráticas e prosperidade invejável. A jovem república por breves 20 anos de independência e extraordinária prosperidade, se tornou o décimo país mais rico do mundo, com indústria automobilística, já antes da 2a guerra. Já contava com um século de malha ferroviária unificando seu território desde os tempos dos imperadores.
Até que no ano de 1939, o governo nazista de Hitler, após massiva propaganda, seduz os checos para que fiquem ao seu lado na guerra e decretam as regiões de Bohemia e Morávia como protetorados seus. Saska, uma jovem amiga local, tem outro olhar. Ela aposta na eficácia do marketing e da propaganda tanto do nazismo como, depois, dos soviéticos. Para Saska os checos não foram coitadinhos. Claro que os nazistas e stalinistas tinham Exércitos ameaçadores. Mas eles se utilizaram de campanhas sofisticadas para seduzir o povo checo. Nazistas usaram o argumento da proximidade cultural e os traços comuns. Foi uma tragédia. E os soviéticos, por sua vez, entre 1945 e 48, fim da guerra, jogaram com os sentimentos dos checos, se utilizando das sequelas do nazismo e do sofrimento de verem 40 mil judeus eliminados só em Praga. Nesta manipulação da fragilidade, venderam o peixe stalinista.
Se aquele apartamento falasse, revelaria que a pujante república democrática da Tchecoslováquia, degustando uma democracia plena, passou, em 1948, a ser submetida a uma tirania implacável. Stalin obrigou a Tchecoslováquia a integrar o grupo da Cortina de Ferro.
Para Václav, foi um regime policial dos mais persecutórios, repleto de dispositivos de controle severíssimos. Era como se o país fosse uma prisão, não se tinha o direito de viajar, recordando que seu pai perdeu emprego público porque a polícia secreta descobriu um presépio de Natal em sua casa. O clima era de restrições da liberdade individual, racionamento de alimentos, desabastecimento, tudo sob a estrita vigilância da STB. Para seus pais, católicos, ainda vivos no início dos anos 50, era um ultraje ver padres e pastores, considerados subversivos, serem colocados como trabalhadores em minas e na coleta de lixo. Igrejas barrocas foram transformadas em depósitos e algumas viraram quadras de basquete e vôlei, enquanto conventos foram transformados em asilos de idosos. Felizmente, caiu o muro de Berlim.
Se o apartamento de Praga falasse, me diria que é bom não esquecer a extraordinária força do marketing e da propaganda. Nazistas e comunistas apostaram em sua força, que resultou em morte e destruição. Outras campanhas vieram com a Perestroika, com o fim da URSS. Elas elaboraram um resgate da identidade nacional. Resultaram, em 1993, na formação da República Checa, separada da Eslováquia, e na entrada na União Europeia, mas a campanha para aderirem ao euro não vingou. Os checos conservaram simbolicamente sua velha moeda, as coroas checas. Resultou em liberdade e retomada de crescimento.
Estes são os cartões postais de viagem que trago para meus amigos e minhas amigas do mercado publicitário. Se aquele apartamento falasse, diria que a história alerta sempre para o supremo valor da Ética.

Carlos Linhares
Colunista
Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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