Viver, consumir, aprender e trabalhar A.C. e D.C (antes do Corona e Depois do Corona)

jun/2020

Nostalgia vem do grego “nostos”, quer dizer “retorno” ou “volta para casa”, junto com o vocábulo “algos”, que por sua vez significa “dor”. Uma boa tradução seria “a dor de não haver retorno”. Na Grécia Antiga, a palavra designava um mal-estar semelhante ao banzo dos africanos escravizados nas Américas. A dolorida sensação de que não haveria volta.  

Banzo e nostalgia assolam nossas almas após mais de 100 dias de isolamento social. Queremos nossas vidas de volta, carecemos das presenças físicas das pessoas amadas por perto, queremos abraços, cheiro no cangote, o luxo de ver os rostos das pessoas ao vivo e a cores, as sofisticadas expressões faciais, a algazarra das crianças por perto, da academia, do banho de mar, das festas juninas, dos aniversários, dos botecos e encontro com os amigos, etc. Saudade de um tempo em que andávamos tranquilos e sem receio, circulando entre pessoas e tocando nas coisas, sem medo de se contaminar.

Nostalgia é autoengano e mau negócio, não existe retorno ao A.C. – e ponto final. Dói, castiga, mas de nada adianta idealizar o passado e sonhar que vamos voltar a viver como em 2019 e que dentro de três meses vamos retomar os scripts de antigamente.

A memória é tátil, guarda os registros num arquivo 3D do cérebro, possui sensações, lembranças – como um perfume ou uma música que tem o poder de nos teletransportar -, ao contrário da perspectiva de futuro, sem registro sensível, abstrata, seca e desafiadora. A nostalgia ainda por cima cria miragens: nos leva a projetar no futuro uma memória idealizada do passado.    

Como será nossa vida D.C., depois da corona? Como serão nossas rotinas diárias como ir à escola, aprender, quais serão nossos novos hábitos de consumo, como o comércio vai sobreviver? Quando poderemos bater perna no shopping em paz, sem medo de se contaminar nem transmitir aos outros o vírus letal? Haverá shoppings depois da longa experiência de compras virtuais?

 

Aprender D.C.

Há um bom tempo que a educação já vinha “existindo” em aulas remotas, mas de fato só se consolidou agora, com imperativo da crise do COVID, sua quarentena e os riscos de contágio por aglomeração. O universo escolar teve que se adaptar dentro das plataformas digitais e recriar processos de aprendizagem sem o “fetiche da presença física”, para usar expressão polêmica de Leandro Karnal.       

Instituições que já vinham investindo seriamente nos canais digitais e nas novas tecnologias tomaram posse de espaços mais rapidamente e, também, ganharam reconhecimento. O isolamento social escancarou o protagonismo da vida digital. Plataformas consistentes e competentes, não importam seu tamanho, são as que vão consolidar o negócio e a prestação de serviços, e estou me referindo tanto a órgãos de governo como universidades de grande porte, consultórios médicos ou de psicoterapia ou escritórios de advocacia.

Para além do currículo escolar e universitário, está aberta a temporada de “retreinamento” de todos os sobreviventes, na era D.C. Como ficará o mercado de trabalho D.C? Quem ajustar o grau de suas lentes para enxergar e compreender melhor os contornos voláteis, complexos e líquidos da sociedade do conhecimento e da empregabilidade vai sobreviver. Tornar-se aprendiz será mais do que uma tendência, uma ética.

Consumo e varejo D.C.

A cultura do consumo foi impactada em vários sentidos e os consumidores resistentes foram pressionados a migrar para o comércio online. Basta ver na portaria dos prédios a quantidade de pacotes que chegam pelos correios. Em paralelo, muita gente sente saudade de perambular pelos shoppings centers, um hábito compartilhado por milhões de pessoas que encontram naqueles centros de consumo o conforto e a segurança nem sempre existentes nas cidades. Como será o amanhã das lojas físicas?

Especialistas da área sustentam que o varejo e suas lojas deverão sofrer uma transformação drástica. Lojas físicas vão precisar articular com os fregueses novos rituais em torno da compra. Filas para entrar, exigência de máscaras, ausência de provadores, termo scanners, medição de temperatura, mostruários onde antes ficavam expostas as coleções deverão se transformar em mesas funcionais com  frascos de desinfetante para as mãos, máscaras descartáveis e tapetes com gel para assepsia das solas dos calçados. Resumo da ópera: todo esse arsenal deverá transmitir mensagem positiva, de comprometimento com a saúde e um compartilhamento de valores.  

A tal “jornada do cliente” entrou em outra dimensão: se antes as lojas faziam esforço para retê-los o maior tempo possível entre suas prateleiras, na era D.C. vão incentivar a hora marcada, a compra remota e a coleta na loja. Mas, se o cliente quiser vir, que venha, pegue a fila, entre com máscara, escolha, efetive o pagamento e saia rapidinho. Vamos sobreviver!

E se o cliente ficar contrariado com todos os procedimentos e sentir saudade da velha relação de consumo de A.C.? Alertar a ele que nostalgia e saudade não adiantam nada, que está na hora de ele encarar o novo normal e suas rotinas.

Aos poucos ele vai perceber que existe uma inteligência comercial na retaguarda de todos aqueles cuidados. E que os esforços demonstrados vão reconquistar a fidelização e a confiança.

Quando a confiança acontece, quem precisa de banzo e nostalgia?

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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