Marketing Político: O jogo a isca

abr/2017

A política no Brasil está mais para um doc drama do que para ideologia. O mais importante não é o que é e sim o que parece ser, e todos os marqueteiros carregam nas tintas, sabendo que num país com pouca cultura e educação, a emoção vale muito mais que a razão e as promessas causam mais efeito do que a verdade, daí todos prometerem o Nirvana. Para os homens de Marketing que gostam do jogo, não importa muito o candidato e nem o partido, mas sim a caixa registradora, a bufunfa, a grana, o resto se ajeita. Quem quiser pode analisar que eles, vão de um extremo a outro, da esquerda para a direita, da direita para o centro e a palavra que soa na boca, vai ser sempre a mesma : sou um profissional! O jornalista Átila de Albuquerque, que já nos deixou e trabalhava com política, foi talvez o único a se mostrar por inteiro, quando tratou desse assunto. Em entrevista a televisão. Perguntado sobre seu trabalho, simplesmente resumiu: “ sou um pistoleiro de aluguel”. A Bahia sempre teve grandes marqueteiros  políticos, os melhores, basta citar Fernando Barros, Geraldão, Duda Mendonça, e João Santana ( Patinhas ) que fez a campanha vitoriosa de Lula e Dilma. Fui colega de Patinhas, tivemos amigos comuns, ele frequentou algumas vezes meu ap na década de 70 e sempre foi uma pessoa muito culta, inteligente, inquieto e circulava nas duas correntes : a da política ( grêmio, jornal etc ) e também na contracultura ( parceiro de Moraes, Bendengó etc ), num tempo em que essas 2 áreas  tinham diferenças e não viviam em harmonia. Patinhas era um dos melhores, mas não era arrogante. A palavra arrogante aparece agora, retroagindo a um fato político referente a disputa Aécio x Dilma, quando lá atrás Patinhas falou que Dilma ia ganhar a eleição e que ia haver uma “antropofagia dos anões”, uma frase que a princípio demonstrava arrogância e menosprezo pelos adversários “, eu mesmo achei isso e até comentei : “ ih, Patinhas ficou arrogante, coisa que ele nunca foi “. Tempos depois, lendo uma entrevista do jornalista Luiz Maklouf Carvalho com ele, vi a explicação bastante plausível  para esta frase, que tirou o foco dos adversários da campanha e colocou Santana que sempre foi discreto no meio do tiroteio.

“ A junção de “anão” e “antropofagia” provoca uma reação em cadeia, uma sinapse poderosa. Por isso o comentário provocou tanta celeuma. Se não tivesse embutido nessa matáfora , teria saído logo de cena ou talvez nem entrado. Os racionalistas ingênuos viram apenas “arrogância” no meu comentário. Desvendo isso agora, para que você constate, mais uma vez, o poder das metáforas. E veja como podemos faze-las funcionar em determinadas direções. Isso, aliás, já vem sendo feito há milênios. Os cântigos religiosos, as bruxarias e os poemas de amor de efeito encantatório repousam nesta ciência. Isso não foi descoberto pela política moderna. Mas há ainda duas intenções ocultas que passaram despercebidas. Eu fiz essa declaração em um momento em que a candidatura da presidente Dilma estava fragilizada, para fora e para dentro, depois de forte queda de aprovação que ela teve com as jornadas de junho. Ou seja: eu tinha a intenção de fortalece-la. Por outro lado, e isso que é mais importante, eu queria fazer meu primeiro teste da força e do equilíbrio emocional dos principais concorrentes. Queria encontrar uma forma, mesmo que pequena, de enfraquece-los. E ver como eles reagiriam. Eles morderam fortemente a isca. A metáfora os envenenou. Ficaram presos dentro deste círculo mágico meses a fio – basta ver quantas vezes repetiram essa história dos anões, ao longo da campanha. E com uma tremenda mistura de ódio e desdém contra mim. Sem querer exagerar meu papel, tenho quase certeza que eles podem ter repetido para si mesmos, ou na intimidade, “ eu vou provar a este filho da puta quem é o anão”. Isso tem um lado bem divertido. Em determinados momentos de uma campanha, é mais tático você influenciar os adversários do que influenciar o eleitor.”

Sérgio Siqueira

Sérgio Siqueira

Colunista

Formado em Administração de Empresas pela Ufba com especialização em programação visual , marketing institucional , propaganda e eventos. Gerente de Criação e Produção e desenvolvimento de projetos e campanhas institucionais e culturais da Rede Bahia.

Mais artigos

Sobre Havana

  Fidel está morto? Havana está viva, quente e eloqüente. Extremamente movimentada, a madrugada da cidade revela uma vida insuspeita. Longos deslocamentos a pé reúnem pessoas em diversos pontos, em frente a teatros magníficos, boites, cafés cantantes. De dia,...

ler mais

A Ressurreição da comunidade

A Páscoa é a festa maior do calendário cristão, mas grande parte dos seus mistérios e símbolos vieram da Páscoa judaica, do Antigo Testamento. O cristianismo herdou e transfigurou tudo, atribuiu novos significados à Pessach (passagem) liderada por Moisés, o líder...

ler mais

Anos 70 na Bahia. E eu fazendo o que por aqui?

Falar dos anos 70 na Bahia, tema do livro coordenado pelo querido amigo Sérgio Siqueira e o escritor Afonso Costa, lançado este mês, não é conversa para menores e já vou aqui me desculpando por isso #SQN. Imagine você leitor se a obra fosse lançada naqueles idos onde...

ler mais

O mercado publicitário no labirinto do Minotauro

As águas de março no Brasil de 2017 andam turvas e opacas, suas margens se encontram tão devastadas e tristes quanto as do Rio Doce, após o desastre em Mariana. Causas múltiplas, vem de anos de governos sem ética e possuídos de delírios de grandeza. Resultou na atual...

ler mais

Papel ou não papel. Não é essa a questão.

Estamos em março de 2017 e, olhando aqui para o papel em branco, me lembrei dos meus primeiros dias de aula na faculdade. Era março de 1996 e, numa aula de Teoria da Comunicação, um profético professor sentenciou: “O papel vai acabar”. E me lembrando ainda de McLuhan...

ler mais

junte-se ao mercado