ENTRE NIETZSCHE E NISKIER. Uma breve reflexão sobre A ALMA IMORAL.
Recentemente, assisti, pela quinta ou sexta vez (não lembro ao certo), a peça A ALMA IMORAL, que, em vias de completar 20 anos, se consolida como uma das peças mais icônicas do teatro brasileiro. E o que impressiona, ainda mais, é o fato de se tratar de monólogo… Pensando bem, nem sei se está correto considerá-la um monólogo, diante dos incríveis diálogos que Clarice Niskier estabelece genialmente com seu público e que constituem – registre-se – parte fundamental da peça.
Já faz algum tempo que venho buscando conhecer um pouco mais sobre a obra de Friedrich Nietzsche, esse filósofo alemão do século XIX. Nietzsche não é para todos. Suas ideias são, muitas vezes, cruentas. É preciso – como se diz popularmente – ter estômago… E, mesmo assim, nem sempre é possível digeri-las (mas, aqui falo exclusivamente por mim). Apenas para ilustrar o que digo, destaco que, depois de afirmar, em O Anticristo, que “a concepção cristã de Deus (…) é uma das concepções mais corruptas que jamais apareceram no mundo”, Nietzsche assevera que “o homem de fé, o crente de toda espécie, é necessariamente dependente – tal homem é incapaz de colocar- se a si mesmo como objetivo, e tampouco é capaz determinar ele próprio seus objetivos”…
Pois bem. Mas, então, o que Nietzsche tem em comum com Niskier (a Clarice)? O que Nietzsche tem em comum com A ALMA IMORAL?
Para quem, eventualmente, ainda não conhece, essa peça teatral foi criada pela Clarice Niskier, a partir do livro de mesmo nome escrito por um rabino… É isso mesmo, Nilton Bonder é um rabino, o que, por si só, sempre me pareceu absolutamente disruptivo.
Sim, nos quadrantes dos meus paradigmas, o propósito de um rabino – assim como o de outros líderes religiosos em geral, sejam eles ligados ao judaísmo, ao catolicismo ao candomblé, pouco importa… – consiste em promover, essencialmente, a perpetração das tradições.
Por isso é que Nilton Bonder, ao escrever A ALMA IMORAL, destrói os contornos dos meus paradigmas, o que enseja, de minha parte, os mais sinceros agradecimentos, pelo fato de que essa destruição expande a minha visão de mundo. Bonder nos mostra, da forma mais elegante possível, que um rabino não está necessariamente preso às tradições. Ele pode também provocar reflexões… e essas reflexões podem, até mesmo, culminar com uma transgressão.
Ele muito bem observa que “a luta milenar entre a letra da lei e o espírito da lei são campo de batalha entre duas percepções humanas plenamente legítimas. A letra da lei responde pelo corpo; o espírito da lei, pela alma. A última visa a provar que a desobediência da lei muitas vezes é uma opção mais próxima da lei do que a própria lei”. E prossegue: “Toda lei só se legitima se encerrar um interesse que não seja o de manter a si mesma, a seu corpo, intacto; mas o de expressar declaradamente a preferência por desobedecer (se isso vier a significar respeito) em detrimento de obedecer (se isso representar desrespeito)”.
Não foi à toa, portanto, que, na entrevista que gravei com a Clarice, em meu canal do Youtube, quando perguntei o que mais lhe havia impactado, ao ler o livro, a ponto de imaginar adaptá-lo para o teatro, ela foi claríssima a responder: “a sagrada desobediência”.
Sucede, no entanto, que essa “sagrada desobediência” somente se revela possível, após um momento de reflexão a respeito do seu cabimento. O que me ocorre aqui, portanto, é que mais importante do que essa desobediência sagrada é a reflexão que a sua potencial implementação enseja. A reflexão, portanto, é sempre necessária; a desobediência, por sua vez, mesmo se revelando sagrada, é um subproduto da reflexão.
Que sejamos, portanto, mais provocados a refletir! Sobre tudo… Que não estejamos tão fechados naquilo que apenas damos como sabido.
É isso. Agora (só agora!), respondo a pergunta proposta linhas acima, propondo que a capacidade de provocar reflexões é o denominador comum entre Nietzsche e Niskier. E, claro, do próprio Bonder…
A ALMA IMORAL é, essencialmente, provocativa; Nietzsche também o é. Não por acaso, ele coloca em xeque os principais ídolos da sociedade de sua época, tomando por “ídolos” não apenas pessoas, como também paradigmas e crenças que se lhes revelavam ultrapassadas e decadentes.
Em seu Crepúsculo dos Ídolos, reconhecendo que “há mais ídolos do que realidades no mundo”, revela que o seu intuito, com o livro, consiste em provocar reflexão. Em suas palavras, “fazer aqui perguntas com o martelo e ouvir como resposta esse famoso som oco que fala de entranhas inchadas”.
Em suma, é preciso que tenhamos uma atitude mais filosófica perante a vida. Refletir mais; se apegar menos… esta é a proposta.
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Bruno Ferreira
Colunista
Advogado. Mestre em Direito do Estado (PUC-SP). Fundador do Instituto Adupé de Desenvolvimento Humano.
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