Quando o Futuro é Incerto, a Nostalgia é um Porto Seguro.
Há algo profundamente revelador no modo como usamos a tecnologia hoje, especialmente se observarmos as trends das redes sociais. Hoje chegaram até mim, através do meu feed do Instagram, várias fotos simulando a estética dos anos 80. O curioso é que atualmente dispomos das ferramentas mais avançadas da história da humanidade, como a inteligência artificial, e, em vez de projetar o futuro, nós a utilizamos para simular o nosso passado, para olhar para trás. E isso não acontece por acaso, o futuro deixou de ser o lugar do conforto.
Quem é da minha geração cresceu alimentado pela esperança no amanhã. Nos anos 80, a cultura de consumo e a indústria cinematográfica alimentavam esse imaginário de possibilidades. Assistíamos a De Volta para o Futuro, nos fascinávamos por robôs, cyborgs e pelo RoboCop. A tecnologia habitava nossos sonhos como uma promessa de progresso.
Hoje, contudo, vivemos esse futuro antecipado como um presente denso, marcado por angústia. Pensar no amanhã tornou-se um exercício de incerteza diante das crises climáticas, dos desastres naturais recorrentes e do aumento vertiginoso da violência, especialmente contra as mulheres. O futuro já não abriga a nossa esperança.
Diante do desconforto do que virá, buscamos o abrigo do que já foi. A nostalgia tornou-se uma das ferramentas mais potentes de resgate existencial porque carrega uma tridimensionalidade única: ela é visual, emocional e simbólica. Não por acaso, é tão explorada pelo neuromarketing. Ao ativar memórias afetivas, o apelo nostálgico aciona nossos neurônios-espelho e gera identificação imediata, seja por vivência direta, seja pela empatia dos mais jovens. É fascinante ver como os anos 80 voltaram com força para as novas gerações, não apenas no visual, mas na música e no comportamento.
Como nos lembra a antropologia, a sociedade se move em ciclos de 30 a 40 anos. O retorno da estética oitentista surge agora como um salvo-conduto, um grito em busca de autenticidade. Vivemos em um período saturado de excesso de informação que, ao mesmo tempo, nos reduz a um minimalismo existencial. Fomos nos reduzindo para caber nas expectativas e nos espaços pré-moldados. Acabamos contidos em espaços cada vez menores, sob a máxima de que “menos é mais” e na tentativa de aliviar a saturação do excesso e buscar um pouco de conforto mental, um ninho seguro.
Como resposta de contracultura, os anos 80 retornam com seu maximalismo, cores vibrantes, atitude, objetos expressivos e a celebração da liberdade. Em meio ao caos, tentamos nos voltar para nós mesmos e gritar ao mundo quem realmente somos. Queremos agora nos expandir. Mostrar quem somos. E é aí que mora a armadilha.
Em A Sociedade do Cansaço, Byung-Chul Han faz uma crítica contundente ao nosso século. Ele explica que saímos do modelo imunológico (aquele no qual o diferente era visto como ameaça e precisava ser igualado ou neutralizado), para entrar na era do excesso de positividade e da autoexigência. Hoje, a busca pela autenticidade e pela diferenciação pode se tornar mais um fardo performático. Na tentativa de mostrar nossa personalidade a todo custo, passamos a guerrear contra nós mesmos e contra as necessidades que criamos. Citando Nietzsche, Han lembra que, por falta de repouso, nossa civilização caminha para uma nova barbárie, num tempo em que os “inquietos” e hiperativos nunca foram tão valorizados. Ninguém para. A pressão para performar uma identidade única e vibrante no meio do caos gera um cansaço absoluto.
O grande desafio do nosso tempo não é recusar a autenticidade ou resgatar a nossa história, mas saber viver sem a tirania da performance. Voltar aos anos 80 nos devolve a cor, a alegria e a memória do que já fomos capazes de sonhar. Mas, para que esse resgate cumpra o seu papel de cura e conforto, precisamos aprender a aterrar, respirar fundo e habitar o presente com mais verdade e com muito menos cobrança.
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Olivia Berni
Colunista
Neuroestrategista de comunicação e CEO do Neuro Insights News e da Plenamind
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