Procuram-se clientes
Uma estátua de uma menina encarando um touro ou uma foto de um restaurante em chamas. A primeira foi a ideia da McCann Nova York para a State Street Global Advisor, uma empresa do mercado financeiro de Nova York. O que para muitos seria loucura, para a SSGA foi um tiro certeiro. A ação Fearless Girl foi pauta ao redor do mundo, com mais de 745 milhões de impressões no Instagram, além de conquistar 4 Grand Prix e 18 leões no Festival de Cannes. A segunda é uma campanha também vencedora de Grand Prix em Cannes na qual o Burger King mostra três lojas que pegaram fogo, em alusão ao fato de que seus hambúrgueres são grelhados no fogo de verdade.
Esses cases trazem a pergunta sobre quantos clientes no mundo, hoje, teriam coragem de aprovar ideias como essas?
As agências de publicidade estão hoje enjauladas pelos próprios clientes.
Começa pelo briefing, que quase sempre vem acompanhado de uma enxurrada de policies que já travam a agência. Isso sem falar de quando não chegam junto com ele caminhos chancelados por consultorias que em 90 dias fizeram um trabalho “profundo” sobre a marca do cliente.
Depois do briefing, vem a criação, que – mesmo com todas as regras – se desdobra para fazer algo criativo que seja relevante e eficiente. Durante esse processo, centenas de ideias boas, médias e ruins são vistas e jogadas fora, até que se encontra uma big ideia realmente forte. Só que, em vez de curtir a onda, é aí que começa a frustração.
Custo, prazo, guide, adequação, tom de voz, mensagem, layout e muitos outros obstáculos são erguidos para matar uma ideia. Tudo vira motivo para transformar as campanhas em menos criativas e mais “corretas”.
Acontece que o mais “correto” não constrói marca no longo prazo. O mais correto apenas mascara o medo que o anunciante tem de ousar. E esse medo é o que também impede as marcas de irem além. Um estudo recente da McKinsey & Company analisou a correlação entre campanhas premiadas e performance das empresas. Curiosamente, os resultados transcenderam os efeitos de valorização das marcas e acabaram afetando positivamente a performance das empresas em termos de volume de negócios e rentabilidade.
As marcas que valorizam a criatividade e o poder das grandes ideias, como Apple, Google, Volkswagen, Coca-Cola, Johnnie Walker, Visa, sempre estão no topo das listas de empresas inovadoras do mundo. Não é coincidência que as agências dessas marcas também cresceram e se modernizaram, mesmo com a revolução digital de plataformas. Motivadas pelos clientes, que elevam a barra a cada job, as agências buscam se superar e entender como a big idea pode trabalhar a serviço da marca, independentemente da plataforma, sem perder criatividade e relevância.
Nada é mais gostoso para uma agência do que emplacar uma boa ideia real. Por que aprovar uma boa ideia não pode ser gostoso também?

Vitor Barros
Convidado
Formado em Administração de Empresas pela UNIFACS – Universidade Salvador e com cursos de especialização em Estratégia Digital pela NYU – New York University e Marketing Digital pela ESPM – Escola Superior de Marketing e Propaganda. Foi co-fundador do Grupo PPG – Holding que reúne as agências Propeg, Menta, Revolution Brasil, Invent Live Marketing e InFavela. Já participou como jurado de prêmios como El Ojo de Iberoamerica, Prêmio Lusos e Bahia Recall. Também está na ficha técnica de peças premiadas diversos festivais nacionais e internacionais como Cannes, El Ojo, Festival ABP, CCBA, Colunistas, Bahia Recall. Em 2014 e 2017 foi escolhido Profissional de Propaganda do ano pelo Prêmio Colunistas Norte/Nordeste.
Mais artigos
O Ponto Cego do Marketing em Saúde: Por que a Experiência é o Novo Crescimento?
No dinâmico mercado da saúde, um erro estratégico tem se tornado cada vez mais comum: o foco excessivo na atração de novos pacientes em detrimento do cuidado com aqueles que já cruzaram a porta da instituição. Muitas estratégias de marketing ainda operam sob uma...
O seu relatório de mídia conta toda a verdade?
Discurso bonito vs resultado real O mercado programático cresceu rápido. Rápido demais para que as regras acompanhassem o ritmo. E isso criou um problema que afeta diretamente quem investe em mídia: é possível gastar uma verba significativa em publicidade digital e...
L.O.V.E, a Matriz
É padrão. Nas agências os briefings são estruturados mais ou menos da mesma forma; dentre os tradicionais tópicos como “fato principal, objetivos, desafios…” quero destacar hoje um especial: o TOM da campanha (racional ou emocional). Eu entendo que essa orientação...
O futuro da longevidade não é sobre idade. É sobre relevância
Tive a honra de participar como painelista do Welcome Women Fórum, em um debate sobre “A economia da longevidade inteligente: IA e envelhecimento populacional transformando a educação e o trabalho.” Ao preparar minha participação, percebi que a maior reflexão talvez...
O que a Copa nos lembra sobre marcas que querem pertencer
A cada grande competição esportiva acontece algo fascinante: pessoas mudam suas rotinas, reorganizam agendas, vestem cores específicas, atravessam cidades, acordam mais cedo ou dormem mais tarde apenas para acompanhar um jogo. Do ponto de vista racional, isso nem...
A era da coerência: ninguém acredita mais em propósito sem prova
E me diz uma coisa: como consumidor você ainda acredita em propósito? Atualmente anda difícil crer que marcas estão agindo, também, em função de seus propósitos. Neste ano de 2026 quando nos aproximamos do mês do orgulho LGBTQIA+, a Parada de SP, a maior do mundo,...
junte-se ao mercado
