Entrevista: Celso Athayde – CEO da Favela Holding

jan/2020

” Com o trabalho que desenvolvemos na Favela Holding, o morador de favela e o negro entendem que é possível terem seus respectivos empreendimentos, podendo prosperar financeiramente, sem ter um patrão.”                                                                                                                                                                    

                                                                                                                                                                          

 

 

 

Celso Athayde é um renomado criativo, escritor, empreendedor, empresário e ativista social brasileiro. Nascido na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, fundou a Central Única das Favelas (CUFA) e está à frente, desde 2015, da Favela Holding, primeira e maior holding social do mundo, que reúne em seu catálogo mais de 20 empresas aceleradas.

 

 

 

ABMP: Como surgiu o start para a criação da Favela Holding?


CA:
Bom, a Favela Holding derivou da Central Única das Favelas (CUFA), maior ONG que realiza trabalho em favelas do mundo. A CUFA foi fundada há cerca de 20 anos, pelos rappers Nega Gizza e MV Bill, e por mim. Ao longo dos anos, virou referência nos projetos sociais nos âmbitos cultural, esportivo e social. Foi então que enxerguei o potencial cultural e econômico da favela, tendo a ideia de criar o grupo Favela Holding, mas tendo a CUFA como um braço cultural. Hoje, a FH conta com mais de 20 empresas com serviços voltados para favela, em diversos ramos, passando por entrega de produtos, venda de passagens e agência live marketing.

 

ABMP: Um dado da pesquisa Voz e Vez aponta que 54% da população brasileira é negra, e que 29% possui um negócio próprio, aderindo ao empreendedorismo. Qual nível de influência as holdings sociais podem exercer para que haja um impulsionamento do número de empreendedores negros?


CA:
Influência total. Com o trabalho que desenvolvemos na FH, o morador de favela e o negro entendem que é possível terem seus respectivos empreendimentos, podendo prosperar financeiramente, sem ter um patrão.

 

 

ABMP: Hoje em dia é bastante comum associar empreendedorismo na favela com ações de propósito social. As holdings sociais possuem exatamente essa característica. Considera esse um ponto chave para inovação?
 

CA: Ponto totalmente chave, porque movimentamos a economia do território, gerando empregos e, mais do que isso, oportunidades. Com isso, a pessoas tem a sensação de pertencimento do lugar onde mora, e é incentivada a transformar a sua realidade e a de quem está ao seu redor. 

 

ABMP: Para a pessoa que quer empreender, mas vive na favela, não tem muito dinheiro sobrando e nem uma holding social para acelerar o negócio, quais dicas você dá para que essa ideia e esse empreendedor em potencial não fiquem sem oportunidade?
 

CA: Ficar atento às oportunidades e às demandas do local onde mora. Hoje em dia, você não precisa de um espaço físico para empreender. Uma vez, realizamos em parceria com Sebrae o ‘Favela Mais’, quando instrutores da instituição foram às favelas de Heliópolis e Paraisópolis, em São Paulo, explicar a importância do MEI (registro de Microempreendedor Individual), e como fazer para obter esse documento. Foi um grande sucesso e aumentamos o número de empregos formais neste território. Esse pode ser um caminho. 

 

ABMP: Os resultados da Favela Holding estão aí. Empresas já foram aceleradas e lançadas, cursos e oficinas já foram também realizados. O futuro bate à porta e o trabalho continua. Dito isso, qual o futuro da 1ª holding social do mundo?

CA: Muito trabalho, muita inovação, muita energia e, principalmente, muito impacto social e transformação de realidades. É pra isso que trabalhamos e vamos trabalhar sempre. Pelo bem-estar do morador de favela, tanto como colaborador, como empreendedor ou consumidor. Sempre expandindo o nosso raio de ativação e, quem sabe, atacando e novos ramos.

 

 

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