Escolha escolher
No início do século XX, minha avó foi dada em casamento ao meu avô. Meu bisavô escolheu um marido para ela quando ainda era criança. Escolher um marido para meninas era uma prática relativamente comum em alguns lugares. O hábito foi caindo em desuso em grandes capitais, mas ainda se mostra presente em algumas cidades e culturas. Em um exercício de empatia pense a agressão que representa ter que viver e conviver ao lado de alguém que você não escolheu. Imagine ter que dividir a rotina, a mesma mesa, se relacionar diariamente com o outro sem ter motivos para um brilho nos olhos, paixão ou nem ao menos motivação. Consegue imaginar?
Tornou-se senso comum ouvir das pessoas que elas gastam mais tempo no trabalho do que com sua própria família. E, em boa medida, isso é mesmo verdade. Mas, será mesmo que podemos comparar um casamento arranjado ao nosso trabalho? Guardadas as devidas proporções, ouso dizer que sim. Veja: meu objetivo não é problematizar relações amorosas ou familiares e sim o espaço que damos para que familiares, mercado, empresas façam importantes escolhas no nosso lugar.
Do ponto de vista profissional, o equívoco geralmente começa na adolescência quando a maior parte das pessoas precisa definir a profissão a seguir. Imbuídos de boas intenções, muitos pais passam a dar orientações sobre as melhores carreiras, profissões mais fáceis ou bem remuneradas. A pressão as vezes segue com a perspectiva de que os jovens herdem escritórios, consultórios, clientelas preestabelecidas.
Por outro lado, durante a vida acadêmica boa parte dos mestres e mentores também ocupam um papel de influenciadores. São hábeis em orientar sobre as melhores práticas para ser escolhido pelas melhores empresas. Empresas estas que alguém nomeou como as melhores. Melhores sob quais critérios mesmo? O resultado deste conjunto de fatores costuma ser uma série de atalhos que vamos seguindo sem quase nunca avaliar se são ou não adequados ao nosso perfil, valores e objetivos de vida. Agimos também em nome da necessidade eminente de estarmos no mercado ou de pagar nossos boletos. Isso não é demérito, mas é preciso atenção.
Um trabalho realmente não é um casamento. Mas é uma união. Ambos são capazes de tomar os nossos dias, impor rotinas, criar hábitos e nos deixar tristes ou felizes, saudáveis ou doentes. Da mesma forma como hoje temos liberdade de escolher nossos parceiros, gostaria imensamente que todos tivessem a consciência de que podem escolher onde e de que forma gostariam de empreender o seu talento.
Reconheço que nem sempre é possível fazer as melhores escolhas. Todos somos vulneráveis a intempéries e necessidades diversas. O que não podemos é, como num casamento arranjado, nos acomodar, deixando que o tempo passe, a barriga cresça e a preguiça nos tome. Façamos a nossa parte de, por meio da autoconsciência, reconhecer o que faz o nosso coração bater mais forte e ir rapidamente atrás disso.
Matéria publicada originalmente no Site Bahia Notícias na edição de 16 de novembro de 2019

Alessandra Calheira
Colunista
Atuou como criativa e redatora publicitária quando foi laureada com um Leão no Festival Internacional de Cannes, com uma medalha no Clube de Criação de São Paulo, Top de Marketing da ADVB, entre outros.
A Ressaca de Março: o que o ‘Luto Dopaminérgico’ ensina sobre o consumidor.
Dizem que no Brasil, e mais especificamente em Salvador, o ano só começa depois do Carnaval. Mas, para quem observa o comportamento humano de perto, a verdade é que março chega com uma ressaca existencial. Atravessamos um túnel de hiperestimulação: o brilho do...
ENTRE NIETZSCHE E NISKIER. Uma breve reflexão sobre A ALMA IMORAL.
Recentemente, assisti, pela quinta ou sexta vez (não lembro ao certo), a peça A ALMA IMORAL, que, em vias de completar 20 anos, se consolida como uma das peças mais icônicas do teatro brasileiro. E o que impressiona, ainda mais, é o fato de se tratar de monólogo......
O futuro não é ancestral. Mas o presente é. E, talvez o melhor — ou o mais desafiado — seja saber que carregamos essa essência mesmo quando fingimos que não.
A ancestralidade não vive apenas nos livros, nos rituais ou nos símbolos. Ela vive em nós. No jeito de falar, na intuição que orienta, no silêncio que protege, na coragem que surge sem aviso, na sensibilidade que escapa à lógica. O presente que habitamos é atravessado...
Investimento para a vida
Uma vez, numa reunião de consultoria de imagem, dessas em que falamos de postura, presença e narrativa, eu fiz algo que costumo fazer: abri um pouco a janela da minha própria história. Gosto de lembrar que nenhuma imagem se sustenta sem alma. E a alma é feita de...
A falácia de que branding não vende
Caro profissional de marketing, eu aposto que ano passado (2025), ao organizar seu orçamento para 2026, você focou a verba em performance, e bem menos em branding. Acertei? Não se sinta mal caso tenha feito isso, porque você está alinhado ao mercado. Das 363...
Branding é Método, Não Magia
Nos últimos anos, a construção de marca ganhou espaço no discurso de empresas, empreendedores e profissionais de diferentes áreas. Termos como propósito, posicionamento e arquétipos passaram a circular com frequência, o que, em um primeiro momento, é positivo. Isso...
junte-se ao mercado
