A Vida Real Acontece Enquanto Planejamos a Perfeita
Enquanto planejamos um cenário ideal, a vida real passa na nossa frente. Vivemos nos bastidores de uma vida idealizada, e a inércia no presente é endossada e justificada sob o pretexto de planejar um futuro melhor.
Ao vislumbrar um futuro perfeito e desenhar cada detalhe no papel, o cérebro gera dopamina (o neurotransmissor ligado à antecipação e à recompensa). Ficamos com uma falsa sensação de realização. A nossa mente cai na armadilha de achar que já estamos sendo produtivos só por estarmos planejando, sem precisarmos enfrentar o desconforto, o gasto energético e o risco de falhar que a execução real exige.
Quando o prazer desse universo imaginário acaba e a realidade se impõe, o que sobra é frustração e pouca energia para realizar tudo aquilo que foi imaginado e já vivenciado pelo cérebro, visto que ele não distingue o que é realidade do que é ficção. Vamos criando e engavetando planos, acumulando frustrações.
Com isso não quero dizer que não devemos planejar o futuro. Imagine, logo eu, uma neuroestrategista de comunicação. O que eu recomendo é gastar mais energia na realização e trabalhar com foco no estratégico. Não queira já descer para o tático ou operacional; isso só vai fazer você ficar engessado e preso a um modus operandi descolado da realidade.
Aprendi desde a época da universidade que o planejamento é uma plataforma estratégica e sobretudo flexível, a ponto de antever cenários e vislumbrar opções de caminhos. O bom plano estratégico segue um fluxo intencional e orientado, forte o suficiente para nos guiar nas adversidades, mas ágil para se adaptar a novos cenários. A tática e a operação acontecem ao longo da implantação.
É durante o processo que a gente entende, aprende e aperfeiçoa. Querer o plano todo detalhado da sua vida antes de dar o primeiro passo é uma ilusão de segurança. Nada garante que o futuro será exatamente aquele. Afinal, vidas (e negócios) são conduzidas por pessoas que sentem, mudam de ideia e evoluem. Cabe a nós medir a temperatura, observar comportamentos e recalibrar rotas ao longo do caminho.
Tendemos a pensar em infinitos cenários, especialmente os piores, mas pesquisas conduzidas por universidades como Penn State e a Cornell University demonstram que cerca de 85% a 91% das nossas preocupações e cenários catastróficos nunca chegam a se realizar. Pensar em tantas possibilidades, além de angústia, traz a paralisia por análise. Diante de todas as opções, o cérebro trava com medo de tomar a escolha errada. No neuromarketing e na psicologia da decisão, chamamos isso de “O Paradoxo da Escolha”, conceito consagrado pelo psicólogo Barry Schwartz, que provou como o excesso de opções gera ansiedade em vez de libertação. Na psicologia comportamental, a partir dos estudos da Universidade de Yale sobre ruminação mental, entende-se esse comportamento de pensar demais como a tendência cognitiva de focar repetitivamente nas causas de um problema sem se engajar em ações práticas. A pessoa fica horas revisando o passado e tentando prever o futuro.
Para romper esse ciclo, pense menos e execute mais. Pare de ficar reescrevendo a sua vida como se fosse páginas de um livro de ficção inspiradas em fatos reais. Comprometa-se com o mínimo viável possível. Tire a vida do papel. Desapegue da perfeição sustentada pelas comparações irreais das redes sociais. Troque performance por prazer, redescubra o que te faz feliz e esteja presente por inteiro onde você está. O planejamento é apenas um pontilhado imaginário, mas o caminho é construído no presente. E com mais presença.
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Olivia Berni
Colunista
Neuroestrategista de comunicação e CEO do Neuro Insights News e da Plenamind
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