O profissional de mídia na era dos agentes: copiloto ou passageiro?
O mercado programático muda rápido, isso não é novidade. Mas estamos atravessando um momento em que a velocidade da mudança é ainda mais intensa.Tenho acompanhado com atenção um desses momentos: a entrada dos AI agents como parte real da infraestrutura de compra de mídia. O IAB Tech Lab formalizou um framework para agentes no RTB. O Ad Context Protocol chegou como padrão aberto de comunicação entre sistemas. Grandes grupos já testam compras agent-to-agent em escala.
Diante disso, a pergunta que pode ressoar na cabeça dos profissionais: o que sobra para mim nesse cenário?
A resposta, e prefiro pensar com o copo cheio, é mais animadora do que parece.
A automação nunca eliminou o estrategista
Quando o RTB (leilão em tempo real) surgiu, havia quem previsse o fim do profissional de mídia. Quando as DSPs amadureceram, o mesmo discurso se repetiu. Quando o machine learning entrou na otimização de lances, mais uma rodada de alarme. Os profetas do apocalipse estão sempre prontos para caçar engajamento e capitalizar em cima desses fatos. Em todos esses momentos, o que de fato aconteceu foi diferente: o trabalho se transformou, mas o profissional que soube se adaptar ganhou mais relevância, não menos.
Acredito que os agentes de IA seguirão essa mesma lógica, com uma diferença importante de escala e velocidade.
O que um agente faz bem é executar com precisão dentro de parâmetros definidos: negociar lances, comparar inventário, identificar sobreposição de audiência, ajustar frequência em tempo real. São tarefas que hoje consomem horas de trabalho operacional e que, executadas por sistemas automatizados, passam a acontecer em segundos.
O que um agente não faz, e não fará no horizonte relevante para quem está no mercado hoje, é entender o negócio do cliente, interpretar um briefing ambíguo, perceber que a estratégia está certa nos dados e errada no contexto, ou reconhecer que um resultado aparentemente bom pode esconder um problema estrutural na compra.
O que muda de verdade para o profissional de mídia
A transformação mais relevante não é a substituição de tarefas, mas a elevação do patamar de exigência estratégica.
Se um agente passa a cuidar da execução, o profissional de mídia precisa ser aquele que define com clareza o que o agente deve perseguir e, mais importante, o que ele não deve fazer. Isso exige uma compreensão profunda do ecossistema: saber que nem todo inventário é equivalente, que frequência inflada não é alcance real, que um CPM baixo pode custar caro em brand safety, que taxa de viewability isolada não significa que a campanha foi vista e tantas outras variáveis. Essa leitura crítica do ambiente não se automatiza.
Há ainda uma dimensão que o mercado subestima: a governança. Agentes mal configurados ou mal supervisionados reproduzem os piores vícios do programático. Reempacotamento de inventário, sobreposição de audiência, otimização para métricas que não representam resultado real. Quem garante que isso não aconteça é o profissional com visão de negócio, não o sistema.
A oportunidade concreta para o mercado brasileiro
O Brasil tem uma vantagem nesse momento. Ainda estamos numa fase em que a adoção dessas ferramentas é incipiente e o espaço para posicionamento é amplo. Quem se qualificar agora para trabalhar com estruturas agentic, entendendo sua lógica, seus limites e suas implicações para o planejamento, vai sair na frente quando a tecnologia se massificar por aqui.
O movimento já está acontecendo, profissionais migrando do operacional para o estratégico, aprendendo a lidar com as ferramentas para fazer as perguntas certas, construindo frameworks de avaliação que nenhum agente conseguiria replicar sozinho, aqui tem o toque autoral, que fará a diferença competitiva.
Não se trata de competir com a máquina. Trata-se de ser o profissional que a máquina precisa para fazer sentido.
O profissional de mídia que entende isso não está ameaçado pela era dos agentes. Ele tende a ser o protagonista dessa nova era de automação.
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Fábio Almeida
Colunista
Managing Director, Biggie
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