A dança dos vampiros no mundo do trabalho

nov/2020

Ouvi este surpreendente relato quando dava treinamento para trabalhadores de uma indústria calçadista gaúcha, creio que em 2008. Era fim de expediente e estávamos a psicóloga Irene, dois gerentes de Gestão de Pessoas e eu numa conversa informal, quando Felipão, um dos diretores da empresa, bem simpático e parecidíssimo com o célebre técnico de futebol, se juntou a nós e começou a contar com detalhes suas impressões sobre uma visita técnica dias antes nas instalações de um gigantesco complexo industrial de calçados, na periferia de Pequim.   

Felipão falava sem parar dos números estratosféricos de trabalhadores, seu fluxo e refluxo nas unidades fabris, da escala de produção muito além dos padrões brasileiros, das máquinas e dos equipamentos ultrassofisticados, da logística do complexo, da sufocante poluição do ar. Destacou que só aquela unidade chinesa produzia, por dia, mais pares de calçados do que todas as empresas brasileiras do segmento, juntas.  

Todo o relato era empolgante, mas o que mais nos impactou foi visita aos galpões utilizados como dormitórios, em torno da fábrica. Em um só galpão se revezavam duas mil e setecentas trabalhadoras nos trezentos treliches – aquelas camas com três andares. De oito em oito horas, dormiam ali novecentas trabalhadoras por turno – fosse de dia ou de noite.  

Um detalhe chocante é que elas só podiam ocupar aqueles colchões por cerca de oito horas, a cada dia. Soado o alarme, saltavam dos leitos, arrancando roupa de cama, travesseiro e pertences, enfiando tudo num saco plástico preto, se deslocando com pressa para o galpão anexo, para asseio, chá e preparar marmitas. E rumavam para suas posições na manufatura onde, entre dez a doze horas permaneciam sentadas e focadas na produção intensiva de solas, botões, ornamentos, cadarços, fivelas e acabamentos de tênis, sandálias e sapatos.

Todos ficamos assustados e indignados com aquela dinâmica de trabalho agressiva.  Irene soltou o verbo, revoltada com o grau de desumanização, servidão medieval e insalubridade. Valmir, um dos gerentes, relacionou o baixo custo do trabalho naquela cultura ditatorial. Os trezentos treliches permitiam um custo de produção bem menor, que aniquilava qualquer possibilidade de competição no mercado calçadista internacional.

Felipão alertou que o mercado calçadista tinha se transformado numa uma pista de dança de vampiros. A regra era sugar ao máximo o sangue da força de trabalho. Em seu relato, sentimos que os vampiros passaram a dar as cartas, globalmente. E, poucos anos depois, de fato, a empresa dos trezentos treliches vampirizou boa parte do parque calçadista nacional. Inclusive aquela fábrica.

Uns cinco anos depois, encontrei Valmir num aeroporto, casualmente, em São Paulo. Recordamos da conversa profética com Felipão sobre os trezentos treliches e a dança dos vampiros.

Valmir passou a trabalhar em outro segmento, era gerente comercial em uma mega rede de lojas de departamentos. Sua vida era viajar freneticamente em busca de roupas baratas na mão de clientes do Paquistão, Índia, Vietnã, Laos, Camboja, Tailândia e cantões da China. Países onde o trabalho é totalmente precarizado, isto é, destituído de direitos.  

Por toda parte, se deparava com trabalho informal, intermitente, insalubre, plataformizado e com contratos jurídicos feitos habilmente com espaços reservados para a burla, para o blefe, como diz o sociólogo Ricardo Antunes, da Unicamp.  

Uberização no mundo do trabalho

Com a globalização, a dança dos vampiros virou o samba de uma nota só. Por toda parte, a mesma batida: desregulamentação de direitos e garantias, corrosão da legislação social protetora, demonização de sindicatos combativos e da Justiça do Trabalho. Além da onipresença de tecnologia do universo informacional-digital com seus Três AA:  automação, algoritmos e artificial intelligence.

O mais contrastante e instigante é ver o avanço das transformações tecnológicas e seu  aparato informacional-digital jamais visto, enquanto nas relações de trabalho, o que se percebe é retrocesso, enxugamento, exploração e desumanização. A dança dos vampiros foi parar nas nuvens digitais.

Parece que perdem protagonismo o taylorismo, o fordismo, o toyotismo e entra na roda o uberismo, com sua nova lógica de relações e organização do trabalho por meio de plataformas conectadas por internet. O termo uberização, seu nome revela, pegou carona no aplicativo Uber, e se refere à fluidez da relação do motorista com a plataforma de mobilidade urbana, que, por exemplo, conta com quatro milhões de motoristas no planeta, sem contrato de trabalho, sem proteção, sem folga, férias nem feriados, sem assistência médica, sem contribuição com a Previdência Social, etc.

O trabalho 4.0 uberizado se esparrama pelos call centers, pelas empresas de telemarketing,  de motociclistas e ciclistas entregadores, pelas de facilities e com o pessoal de care, da Saúde, nas plataformas Amazon, Ifood, etc.

Diante das elevadas taxas de desemprego, as plataformas dispõem de farta mão de obra, necessitada de renda. Viraram uma tábua de salvação no desalentado mercado de trabalho.  Ao ingressarem nas plataformas, os  candidatos ficam sabendo que doravante serão parceiros, prestadores de serviço e empreendedores do próprio negócio.  Não se menciona a palavra trabalhador.

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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