Entrevista: Rafael Valente – Vice-presidente do Grupo Civil
” Enxergo a publicidade e propaganda da Bahia como a mais criativa do Brasil e por muitos anos ela navegou com maré cheia, escondendo muitas pedras que agora aparecem.”

Vice-presidente do Grupo Civil, empresa que completa 60 anos em 2021, e diretor de gestão sustentável da Ademi Bahia, o empresário e engenheiro civil formado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA), Rafael Valente é o entrevistado deste mês da ABMP. Na conversa, ele fala sobre os aprendizados e lições que vem colhendo em tempos de Covid-19, além de opinar, como anunciante, sobre o mercado publicitário baiano que, segundo ele, precisa de um update, principalmente no método de precificação dos serviços prestados.
ABMP: O que você, enquanto executivo, mais está aprendendo neste período? Quais orientações você compartilha com aqueles que ainda não sabem o que fazer durante e após a pandemia?
RV: Estou desenvolvendo a habilidade de manter a calma diante de um cenário extremamente adverso e valorizando cada vez mais o poder de uma equipe unida. O que funciona bem para mim é a meditação (ainda faço menos do que deveria) e limitei o acesso a notícias do Covid para poucos minutos durante a noite.
ABMP: Com algumas exceções, como serviços de streaming e plataformas de delivery, os mais diversos setores da economia estão sendo negativamente impactados pela pandemia do Covid-19 e isolamento determinado em diversas cidades. Como tem sido a readequação dos negócios do Grupo Civil a este novo e repentino cenário?
RV: Estamos sofrendo também, não tanto quanto outros setores, pois a construção civil não paralisou em Salvador e, assim, nossas fábricas de pré-moldados e a pedreira continuam operando com diversos cuidados preventivos e afastamento dos grupos de risco. Reduzimos o faturamento, mas ainda num limite aceitável. A construtora precisou paralisar algumas obras por causa do decreto municipal e da decisão de alguns clientes, outras obras foram adiadas e até canceladas, estamos nos organizando internamente. A incorporadora já tinha vendido 100% do Nau antes do Covid e isso foi muito bom, houve uma paralisação das vendas, mas temos um horizonte animador no online, concluímos o Jazz e passamos a divulgá-lo com imagens reais, o que está gerando muitos leads. No Lucce tivemos nossa primeira venda 100% online, fechamos uma sala do Arbus que entrou para locação e em pouco tempo deu certo.
ABMP: Mudou também a relação com a sociedade a partir das práticas socioambientais da empresa? Por que e, se sim, de que forma?
RV: No nosso caso não mudou, já tínhamos uma atuação forte no sócio ambiental e optávamos por divulgar mais internamente, nesse momento talvez a divulgação seja mais interessante para tentar estimular outros empresários. Acredito que ainda fizemos muito pouco perto do que queremos fazer para apoiar a sociedade. O primeiro momento do Covid foi de rearrumação para garantir empregos, salários e honrar com nossos fornecedores. Ainda precisamos resolver algumas inadimplências de clientes para, aí sim, podermos ajudar com mais impacto.
ABMP: Analisando agora pela perspectiva do anunciante, como você enxerga o mercado de publicidade e propaganda na Bahia? Na sua visão, o setor acompanha as mudanças de atitude do consumidor?
RV: Enxergo a publicidade e propaganda da Bahia como a mais criativa do Brasil e por muitos anos ela navegou com maré cheia, escondendo muitas pedras que agora aparecem. Tenho três mensagens para o setor:
- Não gosto de pagar publicidade por PHI de veiculação. Existe um conflito de interesse de quanto mais anunciar mais a agencia ganha, onde o objetivo seria quanto mais eficiente for a minha divulgação mais a agência deveria ganhar. Vejo que essa é uma forma de camuflar o pagamento da agência e isso é muito injusto com elas, a criatividade tem cada vez mais valor e deveria ser cobrada com transparência.
- Aproveitem o momento para empreenderem, criem produtos. Vocês são supercriativos e sabem comunicar, praticamente tem a faca e o queijo na mão. Os publicitários deveriam ter a experiência de empreender e sairiam muito mais fortes e empáticos para negociarem com os seus anunciantes. Desta forma, acredito que o publicitário alcançaria um equilíbrio entre criatividade e pragmatismo.
- Quando vivemos uma crise na construção civil, partimos para desterceirizar serviços e alcançar um preço competitivo para o cliente final. Num momento de boom, faz sentido terceirizar o máximo e focar no core business e no que for mais rentável, assim teremos escala. Num momento de recessão, precisamos primarizar, fazer bem feito e mais barato que o terceiro para conseguirmos competir e também aprender. Isso vale para a agência que terceiriza e também para o terceirizado que pode buscar o seu cliente final sem intermediários.
Sei que muitas agências ainda terceirizam o online porque se consideravam agência offline. Não deve existir mais essa diferenciação.
ABMP: Para o lançamento de um empreendimento do setor de construção civil, a publicidade atua como um dos agentes principais, por vender o negócio e atrair clientes. Como você avalia o setor criativo, desde a elaboração de peças até a veiculação por diferentes plataformas?
RV: Gosto da redação e gosto da arte baiana, ainda precisávamos nos adaptar mais aos novos meios de veiculação e vejo muita força no online, mas não estamos nos sentindo 100% seguros no atendimento do online em Salvador. Isso precisa evoluir rápido. Existe benchmarking em São Paulo e Rio Grande do Sul, tenho certeza que rapidamente as agências se ajustarão e atenderão bem também.
ABMP: Em 2021, o Grupo Civil completa 60 anos. Quais são as novidades confirmadas para marcar este novo ciclo?
RV: Antes do Covid tínhamos várias novidades, mas agora precisamos esperar um pouco, ver como as coisas vão se comportar no retorno. Em abril, na Civil, criamos um evento chamado Inovabril que foi dividido em 12 projetos estratégicos e de inovação. Teremos desenvolvimento de produtos, processos e modelo de negócio. Sem dúvidas, os resultados refletirão nas comemorações dos 60 anos. Na incorporadora, temos dois lançamentos imobiliários, dois lançamentos de produtos na Industrial e a Construtora fechou importantes contratos de obras para iniciarem pós Covid.
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