Esperança, esperar, esperançar

jun/2022

Já dizia o filósofo Espinosa que a esperança não é o contrário do medo, eles são dois afetos que caminham de mãos dadas, não há medo sem esperança e nem esperança sem medo.  

O medo é uma expectativa de que um mal futuro ocorra, a esperança é a expectativa de que um bem futuro venha acontecer.  Quem projeta o bem no futuro, teme que ele possa não acontecer, portanto é impossível esperar sem medo.

Por outro lado, a confiança não requer expectativa, quem confia não espera que não suceda o que almeja. Nada do que ocorrer vai lhe retirar a confiança, a confiança não está atrelada à expectativa.  

São reflexões necessárias em tempos de escassez de esperança e ascensão do medo. A confiança no futuro para muita gente minguou. A realidade nua e crua, escancarada na vertigem das imagens, mutilou expectativas. A esperança no futuro passou a ser movida a tarja preta, a preleções motivacionais de autoajuda ou por promessas sedutoras de pastores.      

Para muita gente, ao contrário, a vida atual é muito melhor, basta olhar em volta e reconhecer o bem que a ciência e a tecnologia trouxeram. Graças a elas futuramente haverá maior disponibilidade de alimentos, de renda e já gozamos de maior expectativa de vida, controle e prevenção de doenças, a mortalidade infantil e violência estão em queda – em todo o mundo.

É o ponto de vista presente no livro O otimista racional do jornalista científico Matt Ridley. Ele garante que há muitos motivos para ser otimista com relação aos seres humanos e cita exemplos que vão da idade da pedra até a era da internet com o intuito de mostrar que, graças à incessante capacidade humana para a inovação, o século XXI verá a prosperidade das sociedades e a biodiversidade natural aumentadas.  

Esta visão ufanista contrasta com as distopias da ficção científica. Literatura e cinema costumam projetar cenários apocalípticos sobre o futuro. Blade runner, 2001: uma Odisseia no espaço, Matrix, Minority report, etc., mostram uma terra arrasada e uma humanidade perplexa e culpada por ter sido tão ingênua e ter dado tanta confiança à tecnologia e às máquinas, antes responsáveis pelo futuro.   

Também na contramão do futurismo ufanista é flagrante o desespero de executivos de projetos de órgãos das Nações Unidas e entidades coligadas, responsáveis pela gestão das centenas de Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) e suas 169 metas, confiadas à ação conjunta global. Impera entre eles o sentimento de fracasso e frustração.    

O que esperar em termos de erradicação da pobreza, de acesso à água limpa, ao saneamento básico? E as tragédias ambientais com a terríveis implicações na vida das populações? O que esperar diante do enfraquecimento das políticas de saúde e bem-estar, igualdade de gênero, redução das desigualdades? Os dados sobre a vida nos oceanos são desesperadores.

Esperança sem otimismo é o título do antilivro de autoajuda do prestigiado filósofo britânico Terry Eagleton, curiosamente um marxista cristão. Ele propõe a esperança inteligente como melhor instrumento para afrontar o futuro sem subestimar o presente, nem banalizar o passado.

A indústria do pensamento, tão onipresente e atuante no universo empresarial, substituiu a ideia de esperança por um termo mais fácil de manejar: o otimismo, que projeta cenários futuros sem crítica e com as cores mágicas de ideologia de autoajuda. A esperança pode caminhar sem a prótese do otimismo.

O ceticismo da esperança brota da insatisfação compartilhada, diz Eagleton, se inspirando em Walter Benjamin para quem pessimismo e desconfiança estão na base da esperança. Benjamin defende que refutar o otimismo é condição sine qua non para se construir os fundamentos de uma nova sociedade.

Nietzsche repudiava veementemente a esperança, a seu ver uma armadilha, miragem e ilusão. O pior dos males, porque faz com que não enfrentemos todos os outros males. Em um aforismo sobre a Caixa de Pandora ele esclarece seu argumento.

Reza o mito que Pandora abriu uma caixa onde estavam aprisionados bons e maus espíritos, males e desgraças. Escaparam e passaram a atormentar o mundo com guerras, pestes, fome e miséria. A mando de Zeus, Pandora, ao fechar a caixa, viu que sobrava um  dom ali dentro era a Esperança, suplicando para sair e se alojar nos corações humanos. Dito e feito.  

Assim, diz Nietzsche, Zeus quis que os homens, por mais torturados que fossem pelos males, não rejeitassem a vida, mas continuassem a se deixar torturar. Para isso lhes deu a esperança: a esperança na verdade é o pior dos males, pois prolonga o suplício dos homens.

Em Copenhague, na Dinamarca do começo do século 19, o teólogo Soren Kierkgaard, um dos pais do existencialismo, desmascarou as três estratégias mais usadas para se fugir do alcance do radar da angústia e da desesperança.  

A primeira é a aposta na overdose de vivências sensoriais, na vida vertiginosa e na fricção com os prazeres. A segunda, a vida intelectual e introspectiva, vivida no pensamento, no senso de dever e na virtude. A terceira, tão em voga ultimamente, o pertencimento a uma comunidade doutrinária e a uma vida religiosa. Nenhuma das três impedia ao coração humano de se desesperar.   

Não adianta navegar pelos 7 mares das sensações estéticas, nem se arvorar à perfeição ética e nem projetar solidez nos castelos de cartas das comunidades de fé. A angústia dará o xeque mate em quem pretender se alienar da condição de humanos, demasiadamente humanos.

Há esperança para quem dá o salto no escuro, no paradoxo e no absurdo da existência, no mergulho sem garantias racionais, reconhecendo que a desesperança consiste numa de nossas substâncias, diz o pensador dinamarquês.

Lembrei de uma invenção poética do admirado educador Paulo Freire. Ele desejou um verbo próprio para a esperança, um verbo que fosse além do verbo esperar. A seu ver, esperar não remetia à esperança, mas à espera e espera não inspira ação e movimento. Criou o verbo esperançar que traz impulso, convida a se levantar, ir atrás, construir e não desistir de criar novos laços e modos de viver. Vamos.

_______________
O conteúdo e opinião publicados neste artigo são de inteira responsabilidade do autor ou autora.

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
Mais artigos

A potência oculta dos ritos de passagem

Vocês já repararam quantos ritos celebramos nos meses do verão? A temporada começa antes do Natal. Sagrados ou profanos, eles estão presentes nas tradicionais confraternizações que demarcam o fim do ano laboral, com os lúdicos “amigos-secretos”, típicos ritos “de...

ler mais

Priorizar a saúde mental

Foi há uns tantos anos atrás, eu atuava em um RH do Polo Petroquímico de Camaçari, foi quando escutei um operário chamar um colega de chão de fábrica, de Tarja Preta. Rodrigo era seu nome e ele havia usado antidepressivos ao longo de um período da doença. O bastante...

ler mais

Os saveiros e a aceleração social do tempo

Um dos produtos mais misteriosos que os mestres de saveiros transportavam nos barcos ancorados no Porto da Barra de minha infância era o Tempo. Traziam todo tipo de mercadoria para abastecer a feira livre do bairro, vindos das mais longínquas praias, muito além da...

ler mais

Pensamento crítico e inteligência artificial

Era o Reino das Matemáticas, no curso de Tecnologia da Informação. Foram vários semestres ao longo de quatro anos, diferentes turmas, mas em cada uma  fui recebido com um misto de cordialidade e desconfiança. Temiam que a disciplina de Psicologia fosse perda de tempo...

ler mais

junte-se ao mercado