Foresight: como será o amanhã?

abr/2019

Prever o futuro já foi propriedade de profetas, gurus, bruxos, oráculos, xamãs e magos e argumento de ficção científica. Imperadores e reis antigamente dispunham de astrólogos residentes nos palácios dispostos a interpretar sinais do devir e ajudar aos monarcas nas tomadas de decisão. É comum ver ainda hoje em dia anúncios de cartomantes prometendo dizer o que vem pela frente. E como tem freguesia.    

Outro tipo de clientela, mais exigente e cética, também quer saber o futuro, quer prospectar cenários a partir de outros métodos. As demandas por prospecção vem da economia, do mercado financeiro, do mundo da indústria 4.0, da propaganda e marketing, dos  profissionais da saúde e da educação, do agrobusiness, do mundo da moda, etc. O que dizer do mundo do trabalho e do emprego, dos Recursos Humanos onde a cultura digital e as tecnologias disruptivas – robótica, a inteligência artificial, a internet das coisas, etc. – promoveram o  desaparecimento de ocupações, o fim de profissões e empregos?

Alunos de Sistemas de Informação me instigaram a debater o futuro nas aulas de Psicologia do Trabalho. Eles me fizeram debruçar sobre este tema e a me informar sobre o imenso impacto da cultura digital e da inteligência artificial e seus recorrentes desdobramentos.   

O fluxo de transformações acontece em ritmo exponencial e com uma aceleração embutida nos aparelhos que distorce o tempo de uso e volatiliza os processos. A aceleração exponencial acarreta a sensação de obsolescência e de deja vú. Altera a forma de pensar, que já não pode ser linear e local. É preciso ultrapassar o raciocínio ancestral e seu mindset onde consta que próximos anos serão lineares. A era em que vivemos é completamente diferente, em todos os aspectos e não sabemos ao certo do que vem pela frente.

Outro dia li que “um copo d’água e a senha do wifi não se negam a ninguém”. O ditado acrescentou outro modo de aplacar a sede. O wifi mata a sede de conectividade. Já vivemos fundidos à tecnologia via smartphones e gadgets, imersos nos fluxos de dados, compartilhamos do empoderamento tecnológico com máquinas nutridas por nossa inteligência, cada vez mais ameaçadoramente inteligentes.  Já nos tornamos humanos híbridos com a big data, a integração de sistemas, a internet das coisas, a realidade virtual, os robôs autônomos, a segurança cibernética, o cibridismo, a impressão 3D, etc., sem mencionar a compulsão à Santíssima Trindade das Mídias Sociais – Insta, Face e Twitter – que nos abduzem muito mais do que antigos discos voadores.

Brincando com versos de Raul Seixas, a metamorfose ambulante hoje é da tecnologia e fica decretado que quem não acompanhar seu ritmo é que nasceu há dez mil anos atrás.

Estudiosos do futuro chamam seu campo de investigação com o termo inglês foresight, que se traduz como prospecção. Não se trata, portanto, de um prolongamento no futuro de tendências passadas, mas uma antecipação para orientar a ação diante de um panorama novo. É um campo de estudos acadêmicos em franca expansão em universidades de ponta.

O Foresight se debruça sobre cenários do tempo futuro e que são definidos como prováveis, possíveis, plausíveis e desejados ou preferidos, com intensidades fraca, média e forte de acontecer, emitindo sinais que podem servir de base para as decisões imediatas do momento presente. Com pontos chave sobre o futuro mais claros, teríamos mais possibilidades de construir a realidade que desejamos.

O futuro projetado pelos pesquisadores de Foresight se distingue da visão sombria e distópica (não utópica) de filmes clássicos de ficção científica. Foresight não compactua com a visão de futuro do planeta mergulhado no esgotamento dos recursos naturais, vítima de sequelas de guerras atômicas, com incremento brutal da desigualdade, dramática degradação ambiental, fome, violência e caos. Sem falar na presença ambivalente de androides ou seres híbridos de humanos com robôs ameaçadores e traiçoeiros, empoderados pela Inteligência Artificial.   

O fenômeno da Inteligência Artificial consiste ainda na maior incerteza em relação ao futuro. Antigos fantasmas rondam mesmo os mais aficionados utopistas e instigam medo de que seremos reféns dos avanços e do conhecimento humano, que nem sempre seguirá as regras do que queremos. Como será o amanhã se estas máquinas foram livres e autônomas?

Aliás, completou 50 anos a primeira Inteligência Artificial a sabotar seus programadores e a assassinar pessoas: Hal 9000, um computador central que a tudo via e a tudo controlava no livro do escritor britânico Arthur Clarke “2001 – uma odisseia no espaço”, filme e obra prima de S. Kubrick. 

O físico Sthepen Hawkings, famoso homem de ciência que sobreviveu à gravíssima enfermidade neurológica, teve sua imagem corporal fundida a uma cadeira de rodas especial, feita sob medida, e ela, por sua vez, foi inteiramente conectada a equipamentos de Inteligência Artificial.  Hawkings encarnou o maior dos paradoxos quando acionou veementemente o sinal vermelho em relação à Inteligência Artificial. Logo ele que se manteve conectado ao mundo externo graças à tecnologia inteligente e que pode desenvolver e popularizar suas descobertas inovadoras, levando uma vida produtiva, apesar de suas imensas limitações, logo ele, como pode?

O paradoxo de Hawkings se parece com o nosso: tememos e rejeitamos certa imagem de futuro, mas já estamos fundidos a ele.

Como será o amanhã?  

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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