Home office: hóspede da casa, intruso no lar

set/2020

A crise precipitada pelo novo coronavírus forçou as empresas a redesenhar suas operações e reinventar a forma como suas equipes trabalham. Por conta das novas regras de distanciamento e isolamento social, muitas organizações tiveram de admitir o home office e o trabalho híbrido.

Obrigados a permanecer confinados em casa por muitos meses, a solução encontrada por bilhões de pessoas ao redor do planeta foi se adaptar ao trabalho e estudos remotamente e  assim produzir e preservar vidas, empregos e dar curso à educação. Infelizmente, quem não teve a mesma sorte, passou a engrossar as estatísticas de desemprego ou partiu para algum trabalho informal. 

Já muito antes da quarentena as relações de trabalho vinham sendo o alvo principal da disrupção tecnológica nas empresas, se defrontando com desafios iminentes e busca de  novas alternativas. As transformações tecnológicas atingiram todas as áreas, especialmente as relações de trabalho cada vez mais precarizadas, pejotizadas e uberizadas, conforme termos da Psicologia do Trabalho.   

Antes da quarentena, já existiam home office, coworking, plataformas de interação como Skype, Zoom, Teams, WhatsApp, EAD, videoconferências, etc. Mas foi a partir do isolamento obrigatório que todas estas ferramentas passaram a coexistir no espaço doméstico, infiltrando nele um ritmo de tempo acelerado e trazendo para casa os scripts teatrais específicos dos  locais de trabalho.  

Quem diria que um cantinho improvisado da casa, um ângulo da sala, uma mesinha e um laptop, com fios e cabos conectados com modem e wifi seriam os pontos de partida para uma imensa transformação no ambiente de trabalho? Quem diria que este esforço de conexão seria responsável por uma mudança tão veloz e devastadora, jamais vista antes e com capacidade de alterar toda a dinâmica do trabalho, de uma forma tão generalizada e em escala global? 

Líderes empresariais teimosos, formados no paradigma do comando-e-controle e que nunca viram com bons olhos o trabalho remoto, mudaram completamente de ideia. Um líder chegou a afirmar que jamais admitiria antes da pandmia o home office porque “se seus colaboradores já não trabalhavam o suficiente sob olhar controlador, à distância iriam certamente fingir e baixar produtividade”.

Não só ele se convenceu do contrário como muitas outras lideranças confessaram abertamente sua grata surpresa diante dos bons resultados alcançados na crise da quarentena, segundo matéria da revista Forbes. O que mais chamou a atenção dos CEOs foi o senso de responsabilidade e autonomia das equipes para fazer as adaptações e trocar o pneu com o carro andando.

No começo da pandemia, com o vírus mortífero disseminado no ar, medo, incertezas e baixas perspectivas, as lideranças empresariais se depararam com a manifestação do potencial de atores orientados por uma cultura colaborativa que resultou numa transição com sucesso, que impediu maiores perdas. Resumo da ópera: foi a confiança que se tornou um mantra. E a onda colaborativa capturou a sinergia. 

 

Custos simbólicos do home office

Quanto custa trabalhar de casa? Quem cobre as despesas do trabalho remoto? Companhias já aderiram ao home office permanente, afirma o jornal Valor, e os custos vão fazer parte da cesta de benefícios.

No começo, foi como uma lua de mel, mas ela não durou muito. Há muitas vantagens do work anytime, anywhere: ubiquidade, maior liberdade na execução de processos, reuniões mais ágeis, chance de imprimir estilo pessoal nos processos de trabalho e  flexibilizar horários, contar com mais tempo com os filhos, menos estresse no trânsito e economia de tempo e combustível de deslocamento, possibilidades de estudos, lazer, cuidar da saúde, nutrição longe das marmitas e do fast-food, etc.

Aos poucos, porém, algumas vozes começaram a reclamar dos custos simbólicos desse hóspede inconveniente e intruso nos ambientes privados da casa (espaço, edifício) e se infiltrando no lar (as relações de afeto). Sem esquecer que, em algumas homes, muitos offices compartilham o mesmo wifi.  

Então, a fricção entre os dois mundos, do trabalho e do lar sobrepostos no mesmo espaço físico, pode gerar atrito e faísca, metáforas do conflito. E os antigos moradores vão começar a estranhar a presença excessiva do forasteiro na intimidade de seu mundo, sem respeito e sem noção muitas vezes pelo simbolismo compartilhado. 

Os discursos tratados no home office podem trazer sustento para a vida da casa, mas muitas vezes calam os discursos da vida do lar. São culturas incompatíveis: uma impõe uma agenda do efetivo e a outra demanda presença afetiva. Olho vivo: em um tempo de crescente precarização da parentalidade, um conceito preciso elaborado pela psicanalista Vera Ionelli, o home office pode vir a cobrar pedágios simbólicos altíssimos.

É como se a persona profissional fosse virando aos poucos persona non grata, espaçosa e inconveniente, que em nada agrada ao coletivo de mamíferos ocupantes daquele território onde já esfregaram suas glândulas e deixaram o cheiro de suas secreções como marcadores de uma intimidade. 

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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