Na moral, ainda vale a pena apostar na Ética?

fev/2020

Três são as acepções que costumo escutar sobre a palavra Ética entre alunos dos cursos nos quais leciono, há quase três décadas. Introduzo a disciplina com a técnica do brainstorm ou livre associação e irremediavelmente aparecem definições que confundem Ética com Moral, como se ela fosse um conjunto de regras e normas orientadoras da coletividade, ou, a reduzem a valores específicos como a honestidade, a integridade, a bondade, etc., ou ainda a identificam aos códigos de conduta das categorias profissionais, como a “ética” dos médicos, dos contadores e dos psicólogos, por exemplo. 

Convido a todos a verem a Ética como uma disciplina teórica como a  física, a biologia, a sociologia, etc. Um corpo de conhecimento nascido em Atenas, entre os filósofos, com mais de dois mil e quinhentos anos de reflexões acumulados. Ética não mais como adjetivo e, sim, como um substantivo, um saber, uma Ciência, a ciência da moral. Sua função é investigar a moral, sacudir padrões e duvidar do que tem sido estabelecido culturalmente como justo e certo, bom e ideal.

Metaforicamente, a moral sofre de um tipo de obsolescência programada e tende ao enrijecimento de valores (ortodoxia) e ao envelhecimento de critérios (dogma). Caberia à Ética advertir à moral que ela caducou e que precisa rever seus juízos de valor, prejuízos e preconceitos.    

O filósofo espanhol Sánchez Vásquez a define como “ciência crítica da moral”, constituindo-se como uma força motriz questionadora de todas as áreas da vida humana. Enquanto a ética discorre sobre o que consiste uma conduta pautada por normas, a moral aborda sobre o que fazer nas situações concretas e específicas, sendo a primeira uma ciência e a segunda o seu objeto de estudo. Os dilemas éticos são caracterizados pela generalidade e os problemas morais pela especificidade, na qual a função principal da ética é designar a melhor prática pelo ponto de vista moral.  

De um tempo para cá, a Ética parece que retomou algum protagonismo e passou a ocupar o centro das discussões após a terrível maré de escândalos e crimes. Presumo  que os Cafés Filosóficos e as Casas do Saber, com vários cursos relacionados à temática, sinalizem que passamos por um renascimento do debate ético.

No mundo corporativo, esta retomada se dá pela via do Compliance ou políticas de integridade, estratégia mais preventiva e lastreada em dispositivos jurídicos, mas em profunda convergência com o debate ético. Costumo comparar Compliance à casa, o edifício; e a Ética ao lar, à qualidade dos relacionamentos e vínculos dos que moram na casa.

Alunos céticos me desafiam e provocam em todos os cursos, com a mesma interrogação: – E adianta ainda falar de ética, professor? O senhor acredita mesmo que a Ética tem força para promover mudanças?

Lembro de trecho de um livro de Bauman, a Ética Pós-Moderna, no qual ele analisa uma cena dos primeiros capítulos do Livro do Gênesis, na Bíblia, quando Caim, o invejoso e fratricida, retornava do assassinato de seu irmão Abel. Nesse instante, escutou a voz de Javé, que lhe perguntou: – Onde está teu irmão? Esta seria a questão primordial da Ética, segundo Bauman. A existência do outro, a alteridade e a responsabilização com o outro, a justiça.

Aulas de Ética em cursos de Filosofia devem se pautar em textos de Platão, Aristóteles, Santo Agostinho, Santo Tomás, Descartes, Spinoza, Kant, Kierkgaard, Nietzsche, Weber, Freud, Foucault, Hans Jonas, etc. Já em cursos para gestores e jovens lideranças corporativas, entretanto, o escopo deve ser na Ética Aplicada às organizações, aos negócios, ao marketing, à publicidade, à saúde, à bioética, à política, etc.  E, se possível, com uma metodologia mais pautada em Ciências Sociais.

Constato que gente de todos os âmbitos da vida profissional revela o desejo de participar do banquete de Platão, contanto que a conversa não seja somente platônica nem se restrinja a temas transcendentais, distantes demais. Alunos vibram com os conteúdos filosóficos quando se dão conta que eles influenciam positivamente na hora de tomar decisões.

É gente que traz o desejo claro de limpar as lentes de contato opacas e arranhadas pela aceleração da vida, pelo individualismo exacerbado, pela falência de sentido, pelo fim das ideologias. É gente sensível e disposta a escutar a voz que pergunta:  

– Onde está teu irmão?

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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