Não se iludam, o povo está infeliz
O papel do profissional de pesquisa qualitativa é parecido com aquele da mulher que responde a uma observação sobre o marido, dizendo “não é bem assim, eu durmo com ele, conheço bem”. No nosso caso, esse “dormir junto” é uma conversa honesta, em que o entrevistado não é um número para compor alguma estatística, mas alguém que, durante pelo menos duas horas, expressa sentimentos genuínos que, inclusive, se alternam ao longo do diálogo. Mesmo quando se fala de política, mais do que ideologias ou partidos, o que vigora é um estado psicológico e suas manifestações. Por isso, como a mulher que conhece bem o marido, muitas vezes ficamos surpresos, ao nos depararmos com a difusão de certas informações desalinhadas com o sentimento real das pessoas. Claro que hoje, no Brasil, existe uma guerra de informação muito mais de cunho, digamos, “publicitário” do que noticioso. O governo apregoa vitórias em temas sensíveis à população, como a economia e a moralidade administrativa, por exemplo. Por outro lado, a oposição empenha-se em desmentir o sucesso da situação, apontando perdas em termos de cultura e direitos humanos. Esse embate encarniçado que mantém uma efervescência artificial nas redes sociais e obriga articulistas de todas as áreas a repetidas análises sobre no quê se pode acreditar ou não, começou na campanha de 2018 e caminha para um desafio importante em 2020. Até que ponto essa convicção de que a comunicação direta com as pessoas, através dos aplicativos, está sendo suficiente? As pesquisa qualitativas servem para demonstrar a vida como ela é e não como agentes da informação gostariam que fosse. Pode ser uma amarga surpresa para muitos a informação da pesquisa do Instituto Datafolha divulgada em 8 de dezembro de 2019 de que quase a metade das pessoas acham que “a corrupção continua como sempre”, em que pese a Lavajato. Quem trabalha com pesquisa qualitativa, no entanto, ouve isso o tempo todo. Bem como ouve que “esse governo não mudou nada”, que “os serviços estão precários”, que “há um retrocesso na economia”, que as pessoas estão “muito preocupadas com desemprego, insegurança e corrupção” . Sim, parece que estacionamos em 2016. Só que agora piora um pouco porque, além de tudo, há uma profunda desilusão com a aposta que foi feita. O que leva a um tremendo vazio no horizonte dos eleitores.
A percepção de uma chamada “nova política”, teoria logo abraçada, se desfaz, diante de ações típicas da “velha política”. O desemprego vivido na prática cega para o aceno de números “menos ruins”. Aos poucos, cresce a sensação de que, para todos os efeitos, o discurso político só mudou a forma – ficou mais intenso, agudo, agressivo, convicto, popularesco -, mas, no fundo apenas tenta dar um tom revolucionário a um conteúdo desacreditado na raiz. Enfim, é hora de tirar um pouco os olhos das ferramentas e prestar mais atenção nas pessoas.
Karin Koshima
karin@recomendapesquisas.com.br
Karin Koshima
Colunista
Se formou em psicologia na UFBA, é psicanalista com especialização em Psicologia pela USP (São Paulo), também Mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia.
Ansiedade, estresse e correria – entre Chronos e Kairós
A experiência da ansiedade só é “divertidamente” nos filmes da Disney. Na vida real, cobra um pedágio altíssimo e requer maturidade emocional e resiliência. É sintomático que a animação “Divertidamente 2”, do estudio Pixar, tenha atingido um estrondoso êxito e muitos...
Consumo insustentável na sociedade do excesso
Recentemente, fui convidado pelo Instituto Multiversidad Popular, em Posadas, na capital da Província de Missiones, na Argentina, para falar para os alunos de curso de pós-graduação. A missão da “Multi”, como a instituição é carinhosamente conhecida, é difundir...
A potência oculta dos ritos de passagem
Vocês já repararam quantos ritos celebramos nos meses do verão? A temporada começa antes do Natal. Sagrados ou profanos, eles estão presentes nas tradicionais confraternizações que demarcam o fim do ano laboral, com os lúdicos “amigos-secretos”, típicos ritos “de...
Priorizar a saúde mental
Foi há uns tantos anos atrás, eu atuava em um RH do Polo Petroquímico de Camaçari, foi quando escutei um operário chamar um colega de chão de fábrica, de Tarja Preta. Rodrigo era seu nome e ele havia usado antidepressivos ao longo de um período da doença. O bastante...
Não aperte a minha mente: saúde mental em tempo de urgência
O tempo está passando muito veloz, a velocidade é o novo valor, virou uma commodity, a regra do quanto mais rápido melhor se consolidou. Não apenas comemos fast food, como também escutamos música e recados no WhatsApp de forma acelerada. E há quem assista filmes em...
Economia da Atenção: como o universo das telas deteriora nossa saúde mental
Repare que a dama do meme que ilustra este texto mal consegue sustentar os coraçõezinhos vermelhos. A Deusa dos likes e das curtidas expressa contentamento e ar de triunfo, afinal recebeu o reconhecimento esperado e capturou a atenção de quem a curtiu. Ela não faz...
junte-se ao mercado