O cruel ritual da miséria

out/2019

Ela acorda às 4h da manhã para catar qualquer coisa que, por sorte, ao final do dia, lhe renda, pelo menos, o mínimo suficiente para comer naquele dia. O outro vive de catar mariscos à mercê da “mãe maré” – quando chove não tem pesca e, em casa, não se come. Vivem em ruas enlameadas, são humilhados nos postos de saúde e sua chance de estabelecer uma trajetória diferente na vida praticamente se anula diante de escolas sem professores. Atingidos em sua dignidade e estilhaçada a sua pouca esperança, esses eleitores se deparam com uma nova eleição no horizonte.

 

Se para alguns de nós, uma eleição é apenas mais uma eleição, dessas que sabemos, conformados, que por certo a maior parte das promessas não será cumprida, para uma grande parte da população, aquela que se debate cotidianamente com uma situação inimaginável para os mais favorecidos, uma eleição pode ter o peso da renovação da fé na vida. A fé, por vezes a única motivação que nos conforta enquanto sobrevivemos numa agonizante realidade. E os candidatos sabem disso. Ô se sabem.

 

Escutando, profissionalmente, muito de perto as populações, noto que, a dramaticidade do que é produzido a partir desse quadro se revela assombrosa, quando junta necessidade premente e cinismo eloquente. Promessas de campanha são feitas muitas vezes no único cômodo das casas, na sinceridade do olho no olho, diante da intimidade de uma xícara de café adoçado. O doce do café se convertendo em sabor de esperança e confiança de que as palavras ouvidas só podem ser verdades. Como não crer?  Mais do que isso: como conseguir não crer, se acreditar é o único alívio possível?

 

Compra de votos? Como ousa alguém no conforto da sua bolha, criticar quem “vende” o seu? A dinâmica das eleições carrega o peso de todo esse contexto. Falar em propostas, muitas vezes, parece mera encenação. Brinca-se na verdade é com as emoções e com a repactuação da fé perversamente renovada a cada eleição. Promete-se o mundo, se negocia com o possível e o improvável até que todos se conformam: “se fizesse ao menos um pouquinho por mim já estava bom”. A cultura da mendicância se alimenta do desespero. O “rouba, mas faz” parece algo bem legítimo e é, propositadamente, manipulado e alimentado no inconsciente da população. Na reta final dos mandatos, candidatos à reeleição distribuem umas migalhas, que são devoradas com voracidade pelos revestidos do conformismo, próprio daqueles que aceitam ter desejado muito além do merecido. Convencidos da sua invisibilidade e inutilidade, parecerá sempre que um pouquinho já lhes é o justo. Precisam se convencer disso. Precisam se contentar com isso. Afinal, perder a fé é perder o rumo da vida, perder o prumo e a força de seguir… até a próxima eleição.  

 

Karin Koshima
karin@recomendapesquisas.com.br

 

 

Karin Koshima

Karin Koshima

Colunista

Diretora Executiva da Recomenda Pesquisas & Consultoria – especialista no comportamento do consumidor, eleitor e posicionamento de marcas. Às informações derivadas das pesquisas, agrega consultoria em planejamento, estratégia e marketing. Se formou em psicologia na UFBA, é psicanalista com especialização em Psicologia pela USP (São Paulo), também Mestre em Administração pela Universidade Federal da Bahia.
Mais artigos

A potência oculta dos ritos de passagem

Vocês já repararam quantos ritos celebramos nos meses do verão? A temporada começa antes do Natal. Sagrados ou profanos, eles estão presentes nas tradicionais confraternizações que demarcam o fim do ano laboral, com os lúdicos “amigos-secretos”, típicos ritos “de...

ler mais

Priorizar a saúde mental

Foi há uns tantos anos atrás, eu atuava em um RH do Polo Petroquímico de Camaçari, foi quando escutei um operário chamar um colega de chão de fábrica, de Tarja Preta. Rodrigo era seu nome e ele havia usado antidepressivos ao longo de um período da doença. O bastante...

ler mais

Os saveiros e a aceleração social do tempo

Um dos produtos mais misteriosos que os mestres de saveiros transportavam nos barcos ancorados no Porto da Barra de minha infância era o Tempo. Traziam todo tipo de mercadoria para abastecer a feira livre do bairro, vindos das mais longínquas praias, muito além da...

ler mais

Pensamento crítico e inteligência artificial

Era o Reino das Matemáticas, no curso de Tecnologia da Informação. Foram vários semestres ao longo de quatro anos, diferentes turmas, mas em cada uma  fui recebido com um misto de cordialidade e desconfiança. Temiam que a disciplina de Psicologia fosse perda de tempo...

ler mais

junte-se ao mercado