Pensamento crítico e inteligência artificial

jun/2023

Era o Reino das Matemáticas, no curso de Tecnologia da Informação. Foram vários semestres ao longo de quatro anos, diferentes turmas, mas em cada uma  fui recebido com um misto de cordialidade e desconfiança. Temiam que a disciplina de Psicologia fosse perda de tempo e seus temas prediletos eram outros: programação de dados, internet das coisas, computação, criação de games, redes neurais, algoritmos, cálculos, robótica, inteligência artificial, etc.

A universidade era pública e os docentes da casa tinham fama de competentes, comprometidos e bastante rigorosos. Meus alunos eram, em sua maioria, muito jovens e encaravam as disciplinas técnicas com um misto de medo e entusiasmo.

O programa de minha disciplina reunia tópicos de Psicologia Organizacional e do Trabalho, dando destaque a temas como liderança, trabalho em equipe, autoridade, influência, gestão de conflitos e mudança, etc. Adicionei ao conteúdo pitadas de Sociologia das Organizações e boa dose de Pensamento Crítico.

Foi esta experiência como docente em TI que me levou a olhar para tecnologia com outros olhos e a me interessar pelo fenômeno das transformações digitais e seu impacto, em muitas dimensões da vida atual, em especial, as drásticas mudanças no mundo do trabalho e na saúde do trabalhador.

Este interesse me levou aos “future studies” ou Futurologia, ao estudo do Foresights, uma disciplina que prospecta cenários futuros a partir das disrupções tecnológicas.

Entretanto, meu maior choque na condição de estrangeiro nesta tribo era constatar um baixo senso crítico entre os atores com quais contracenava. Seu ufanismo, seu otimismo exagerado, com pitadas de positividade tóxica, era constrangedor.

Meus alunos professavam uma visão mágica da Sociedade 5.0, uma percepção desconectada das realidades política,  econômica e social. Como se os três AAA – automação, algoritmo e AI – não estivessem visceralmente amalgamados com os objetivos financeiros dos donos das big-techs.

E demonstravam baixa tolerância à crítica em relação à tecnologia. Recebi seguidos sinais  vermelhos ao tecer comentários negativos sobre o lado sombrio do universo tecnológico.  

Então convoquei humildemente a Coruja de Minerva – a que alça voo quando as sombras caem, segundo Hegel – e ela atendeu ao meu clamor, sobrevoando a sala, dando outro tom às aulas, instigando novos questionamentos, inspirando a boa lógica, trazendo de volta o discernimento entre a verdade e a falsidade, a fé nas boas premissas antes do argumento e, enfim, entronizamos na sala sua majestade, o Pensamento Crítico.

Costumo abordar o Pensamento Crítico como uma escada de cinco degraus. O primeiro deles, é a retomada do ceticismo. Martha Gabriel, pesquisadora renomada da área, sugere chamar de “ceticismo amável” ou a arte de duvidar sem agressividade. Duvidar de tudo, sem truculência e sem lacração.

O segundo degrau, mais desafiador, implica em se despir dos vieses cognitivos, aqueles atalhos cerebrais que influenciam o julgamento e a tomada de decisão. Vieses ou esquemas mentais preexistentes e inconscientes infiltrados em nossa percepção e, onde dorme o perigo, na percepção de quem programa os algoritmos, por exemplo. A diversidade e convivência com a diferença nos leva a desconfiar de conclusões equivocadas.

O terceiro degrau é a retomada do pensamento lógico, com a prática na argumentação fundamentada a partir de premissas qualificadas. E, outro desafio, o retorno à retórica. 

A quarta habilidade é a ampliação do repertório, o alimento do pensamento. Uma compreensão do contexto e do cenário no qual, outra vez, a diversidade humana pode ampliar as possibilidades de compreensão e discernimento. Como escreveu lindamente Guimarães Rosa, em Sagarana: 

“A cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total. ”

O quinto degrau é o que mais me entusiasma e inspira. O balizamento ético e o questionamento sobre os valores humanos na vida atual onde a tecnologia é onipresente.

De que adianta tamanha sofisticação tecnológica se os efeitos são precarização no mundo do trabalho, eliminação de ocupações, controle, difusão de mentiras e fake-news, mineração clandestina de dados, abdução de mentes, a dependência tecnológica, “novo feudalismo”, com a dominação das big-tech (Google, Amazon, Netflix, Apple, Microsoft, etc.), as donas do pedaço?  

O pensamento crítico nos permite encarar as mudanças desta era de inovações tecnológicas aceleradas e contínuas com maior resiliência e adaptação, sem abdicar de princípios. É hora de abraçar estratégias de aprendizagem inovadoras, audaciosas e eficientes. De que outro jeito poderemos adquirir, reter e transmitir competências para lidar com tamanha aceleração?

O que adquirimos no âmbito intelectual provavelmente já caducou. A não ser que tenhamos aderido à inovação. Uma coisa é certa: a maior parte de nós vive com prazo e validade estabelecido.

A obsolescência programada antigamente era restrita aos aparelhos eletrodomésticos. Hoje, não. A abundância de informação, o ritmo vertiginoso de produção cientifica e tecnológica é tão elevado “que facinho, facinho, a gente fica de fora”, como me disse uma professora de TI.

Ou, como diz um esperto ditado carioca: – Chove sopa, e eu de garfo.

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Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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