Positividade tóxica: a tirania do pensamento positivo

maio/2022

A positividade tóxica, com seus clichês motivacionais e obsessão pela felicidade, são uma face do pensamento positivo, uma estratégia que visa escamotear, invisibilizar e excluir emoções consideradas negativas e prejudiciais ao convívio.   

Nada a ver com apoio psicológico, escuta solidária e o consolo de um ombro amigo, gestos nobres de empatia, expressão de humanidade. O que nos espanta é a versão tóxica do pensamento positivo que se coloca como uma ação disciplinadora e que usa e abusa de farto arsenal persuasivo para manipular corações e mentes.

Sua intenção é filtrar a percepção da realidade, distorcer e promover resistência aos sentimentos negativos, convencendo os queixosos a tirarem o melhor partido de si mesmos, controlando totalmente seus desejos considerados improdutivos e seus pensamentos derrotistas. Seu alvo é gerar motivação, felicidade, prosperidade, mesmo falseando a percepção da realidade.

A ensaísta Barbara Ehrenreich se dedicou a investigar a origem do fenômeno e sua disseminação na cultura norte americana. E descobriu sua uma conexão com o caldo cultural favorável ao desenvolvimento de pseudociências e da onda de obscurantismo naquele país.   

No seu livro Sorria – como a promoção incansável do pensamento positivo enfraqueceu a América. (Ed. Record, 2013) ela narra com detalhes seu duplo calvário após uma mamografia de rotina que detectou, quando tinha 59 anos, um inesperado tumor maligno na mama. No capítulo Sorria ou morra: o lado positivo do câncer descreve como, além de enfrentar as mazelas do pós-operatório e tratamentos oncológicos teve que encarar sessões de positividade tóxica nos grupos de apoio psicológico.

Ela se viu obrigada a aceitar – com um sorriso sem graça e espírito de superação – a perda do seio e suas complicações, calada, dissimulando sua revolta, aparentando resiliência e esperança.

Escutou, em diversas sessões, que só se fosse otimista e feliz lograria vencer a enfermidade e, o cúmulo do absurdo, devia considerar o tumor como “um presente” do destino.  Ela, uma doutora em biologia, militante politizada e iconoclasta, se tornou alvo do arsenal narrativo do mindset da positividade o qual assegurava que postura pessimista debilitava seu sistema imunológico.

Viu de perto como o pensamento positivo molda os scripts sobre a doença a ponto de uma sobrevivente perceber ser mais conveniente se impor autocensura e cessar qualquer referência ao sofrimento e à dor. A expectativa dos grupos era ouvir testemunhos de superação com mensagens inspiradoras de encorajamento.

Expressar revolta pela extirpação das mamas, perda de cabelos e enfrentar o mal-estar da quimioterapia acarretaria a intoxicação de si e das outras pacientes em recuperação, diziam, apelando até para a física quântica. A mentalidade disciplinadora e tirana engendrava a crença de que a mente pode incidir sobre o funcionamento do mundo real.

As sementes do pensamento positivo nos EUA teriam sido plantadas pelos colonos pioneiros vindos da Europa, brancos, protestantes calvinistas, crentes em uma divindade de cariz patriarcal, rigoroso e puritano para quem o trabalho seria a única forma de redenção espiritual e de produção de riqueza. Mas o usufruto da recompensa deveria ser postergado para o futuro.    

A riqueza acumulada suscitou uma explicação lógica espiritual – uma teologia –  para justificar as razões de tamanha prosperidade. E assim a riqueza passa a sinalizar predestinação do fiel, bênção e proteção divinas. Então, por que esconder o que foi alcançado com tenacidade, resignação e positividade?

Com o tempo, a moral religiosa troca o teor dos sermões. Se antes eram carregados de fúria e ameaças de punição aos pecadores, de repente passam a focar na positividade,  prosperidade, propósito e abundância. O pensamento positivo vai aos poucos deixando de ser um consenso cultural e toma corpo como ideologia. Para isso, mais tarde, vai precisar de uma retaguarda com cabeças pensantes.   

O mundo do trabalho vira o alvo preferencial da positividade tóxica. Até os desempregados são advertidos durante os em treinamentos a trocarem sinais de mal-estar, angústia e desamparo por demonstrações de otimismo.

O mundo editorial passa a lucrar com uma enxurrada de publicações de autoajuda. Até hoje os best-sellers da década de 1930 fazem sucesso. Em A arte de fazer amigos e influenciar pessoas, publicado em 1936, Dale Carnegie já afirmava que ambientes de trabalho deveriam ser espaços de condescendência e sorriso. Foi um dos primeiros autores a confessar que o segredo do sucesso no trabalho é fingir otimismo no ambiente organizacional.

O best seller O Segredo, de 2006, de Rhonda Byrne, o catecismo da Lei da Atração, influenciou profissionais de diferentes áreas com frases como se as queixas transmitem negatividade, elas podem afastar pessoas e oportunidades. Em meio à brutal e crescente precarização no mundo do trabalho, os ideólogos da positividade persistem no convite a nos mantermos com  o coração grato à crise pela oportunidade de sair de sua zona de conforto.

Em resumo, o mindset tóxico se mimetiza em discursos conformistas, jogos motivacionais que apregoam resiliência, empreendedorismo, distorcendo conceitos e apostando em  ressignificação. E chovem clichês: vai dar certo, seja seu próprio líder, pare de se queixar e seja foda, já é, etc.  A fórmula é muito simples: tudo está dentro de cada um, toda potência, agência ou redenção. Seja sua própria luz, conecte-se com seu eu positivo. Discursos críticos, debates acalorados sobre temas relevantes passam a ser identificados como negatividade e risco.

Editoras de livros de autoajuda, consultorias de eventos motivacionais sempre tiveram fortes vinculações com os departamentos de RH. Um exército de pregadores, evangelizadores (sic), oradores motivacionais, gurus, coachings, palestrantes inspiracionais  e autores de autoajuda, etc., estará sempre disponível para as para campanhas de motivação, felicidade, prosperidade, etc.   

Mas há sinais de esgotamento do discurso tóxico good vibes & gratiluz no horizonte. As mídias sociais já encontraram um antídoto para a onda tóxica. Quem diria que os filósofos estoicos seriam os queridinhos escolhidos e abraçados pelos gurus digitais?

Sim, os estoicos, os filósofos da vida que vale a pena ser vivida –  na dor e delícia do que ela é – já contam com milhares de seguidores e admiradores midiáticos e marcam presença em vídeos, cafés filosóficos e podcasts onde se propagam reflexões e conselhos dos três sábios de Roma Antiga: Marco Aurélio, Epiteto e Sêneca, respectivamente, um imperador, um escravo e um senador da República.

Três mentes antifrágeis, como diria Nassim Taleb, que souberam encarar os árduos desafios enfrentados por trajetórias radicalmente diferentes. Mas com algo em comum: a aceitação integral do Amor Fati, expressão latina que afirma o amor à vida, amor ao destino, amor ao fado, à vida como ela é.

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Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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