Resiliência

out/2023

Tantos são os nomes bonitos, outros nem tanto e alguns bem complexos para definir pessoas, tachar seres humanos ou usar para julgar positiva ou negativamente uns aos outros.

Um pensamento bem comum que paira por aí é “Se tenho um ponto de vista e o outro pensa diferente, melhor usar alguma palavra para acusá-lo de ser aquilo que não concordo ou o que a sociedade tem pregado como tendência de julgamento”. Nem vou citar as palavras nesse artigo. São tantas e ocupariam muitas linhas.

Alerta vermelho! Esses contrassensos estão cada vez maiores, mais ácidos e mais velozes com a ajudinha das redes sociais. Em se tratando de redes sociais, quantas são as pessoas que por traz de uma tela, escrevem duras críticas, pedindo ou incitando punições sem ter a sensibilidade de que, do outro lado, não há uma máquina sem sentimentos e sim outra pessoa que poderá sofrer consequências emocionais e físicas a depender do ocorrido. Com certeza irão justificar seus atos e falas pelo comportamento dessa outra pessoa, apontando seus erros. Eu não arriscaria dizer que sempre estão equivocadas, mas quantos foram os erros que já cometemos sem perceber ou querer? Ou, no mínimo, ações ou falas que nos arrependemos?

Existe forma de parar isso tudo? Não!

Existe forma de bloquear isso tudo? Não!

Há como rever o processo? Eu até teria esperança em outros tempos, mas hoje, não mais.

Qual a solução? Resiliência! Somos elásticos e nem percebemos.

Nosso cérebro nasceu com uma plasticidade incrível se modificando de acordo com a necessidade, estímulo ou ambiente ao qual fomos apresentados. Essa plasticidade é mais visível nas crianças e jovens com cérebros predispostos ao novo. Nos adultos, a maior questão envolvida se relaciona à resiliência, mas nem todos a tem, nem todos conseguem ser treinados para tê-la ou nem sempre conseguimos usá-la quando mais precisamos.

A principal característica da resiliência, que traz seu significado dentro da física, é a capacidade de retornar ao seu estado original mesmo depois de ter sofrido uma deformação elástica ou, no sentido figurado, a capacidade de se recuperar facilmente ou se adaptar às mudanças. Esse “facilmente” tem um custo alto para a maioria das pessoas “agredidas” verbal ou fisicamente e, o agressor, nem se dá conta disso.

Cresci tendo que ser resiliente e nem eu sabia disso. Soube já na fase adulta quando avaliei diversas situações ao longo da vida (com ajuda de um profissional) e entendi os motivos que me fizeram forte para suportar tantos acontecimentos e elástica para retomar o estado original com as cicatrizes naturais que vão se fixando em nossa história. Inclusive, passei a gostar de cicatrizes físicas a partir de uma certa idade do meu filho (que tem muitas) porque tanto as minhas, quando as do meu marido e dos meus filhos, vão contando uma história de vida, do viver, do vivenciar e do superar que nos fazem dia a dia mais resilientes.

Se posso deixar, nessas linhas, uma sugestão é a de avaliar o quanto você também foi resiliente ao longo da vida e veja que pode usá-la – a resiliência – muito mais do que imagina. Ela te ajudará a passar por muitos desafios com mais sabedoria e paciência, ajudará a compreender que somos seres distintos e não podemos mudar o outro se ele não estiver preparado, mas podemos mudar o modo como recebemos os acontecimentos e os usamos. Olhe para suas cicatrizes e veja qual história elas contam. Você perceberá que, por traz delas, há um ser humano com uma história única, íntegra e uma vida que merece respeito, o autorrespeito.

Menos críticas ao outro e mais resiliência a todos.

Até a próxima!

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O conteúdo e opinião publicados neste artigo são de inteira responsabilidade do autor ou autora.

Erika Buzo Martins

Erika Buzo Martins

Colunista

Doutora em Administração, Especialista em Marketing e Publicitária. É entusiasta dos estudos sobre comportamento humano/consumidor, trabalha com consultoria em Desenvolvimento Humano e Marketing. É Master Trainer em Programação Neurolinguística e Coach e, além de atuar como professora universitária há mais de 18 anos, é supervisora de Marketing do curso de Administração da ESPM-SP.

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