Sociedade do cansaço: não aperte minha mente

maio/2021

A pandemia trouxe uma carga extra de cansaço, fadiga e exaustão. Ao estresse acumulado de antes, com as impotências nossas de cada dia, problemas, dívidas, prazos, metas desafiadoras, engarrafamentos e insegurança no emprego, etc., somaram-se novas doses de cansaço com as restrições da quarentena e dos lockdown.  

Ninguém poderia adivinhar nem de longe qual seria o custo emocional e social de um lockdown, uma palavra estranha e que escancarou o quanto somos rueiros e o quanto a quarentena e suas proibições cortaram nosso barato de bater pernas e sair por aí.

A pandemia acendeu um sinal de alerta e acionou nossos radares para aquilo que a Filosofia tentou nos recordar há tempos: de que somos seres para a morte, como filosofa Heidegger. E nos obrigou a levar a sério o cuidado de si e cada um se proteger. De repente, ficar em casa virou medida sanitária e política de proteção coletiva. Permanecer em vigília, antecipar riscos e viver sob a ameaça do contágio elevou a sensação de exaustão.

Quem pode ficar em casa experimentou o estresse da compressão territorial, termo cunhado por psicólogos em laboratórios de comportamento. Pode-se observar o incremento da agressividade entre ratos, quando passam a conviver mais próximos e em espaços mais exíguos.

Assim, estresse territorial doméstico também produziu atritos e acendeu faíscas nos relacionamentos e um exigiu esforço extra e uma repactuação das regras de convivência e delimitação de espaços. A transição das rotinas de trabalho, escola e lazer para as plataformas digitais também cobrou seu custo. A invasão desses espaços virtuais no ambiente da casa roubou parte da intimidade e causou confusão nos papéis psicológicos.

A Zoom fatigue (fadiga do Zoom) foi o nome que o professor e pesquisador Jeremy Bailenson, de Stanford, deu ao cansaço provocado pelo uso abusivo de plataformas de videoconferências. Ele evidencia quatro situações geradoras de estresse psicológico. Vale ler o artigo, em especial suas dicas de como escapar dos prejuízos. (1)

Cansados de ter que escutar tanta notícia ruim na mídia, fomos nos tornando menos sensíveis ao número crescente e espantoso de vítimas fatais. De vez em quando, um susto: a dor pela morte de um ente querido. Um número a mais numa estatística perversa de alguém que não contará com enterro digno e cerimônia de adeus.

Automatizamos, felizmente, o uso das máscaras e do álcool em gel, mas se tornou insuportável escutar as vozes negacionistas, criticando seu uso com argumentos irracionais e típicos de seita religiosa fanática travestida de ideologia política.

Encapsulados, trancados em casa, vimos a esperança se cansar. À noite, sonhos estranhos e agitados atrapalharam nosso descanso. As fantasias de um Brasil promissor foram se desidratando e nas ruas vimos a desigualdade se escancarar em longas filas nas portas dos bancos, na demanda por auxílio emergencial e na demanda por emprego. O cansaço dos desempregados se transfigura em desalento.

Cansaço de não ver futuro, de não se poder sonhar em paz, de não poder despertar sem angústia, de assistir as duas pandemias em curso no país: uma de gestão da morte e outra da morte da gestão.

Cansaço profundo de ver a própria renda ser carcomida pela inflação, de ir ao mercado e ver a deterioração do poder de compra, de sentir a precarização do próprio trabalho, de perceber o quanto foi maléfica a pejotização da própria força de trabalho.

Cansaço de ver a política acionar sua máquina de manipulação, sem falar da náusea profunda ao ver pastores e curas nas mídias e púlpitos, prometendo felicidade com as táticas perversas da lavagem cerebral.

Cansaço, enfim, de ter que pisar em ovos ao lidar com gente querida e próxima, que comunga com outro espectro político. E com quem não convém de maneira alguma triscar nos temas tabus, sob pena de se promover erupções virulentas e aumentar a carga de cansaço emocional.

Em meio a todos estes cansaços, ter que encarar discursos da mais constrangedora positividade parece ser uma espécie de tortura indesejável. Positividade, no caso, é uma moda esquisita de negação da tristeza e de outras emoções consideradas negativas, de gente que tenta convencer os outros de que a vida é cor de rosa na rua, na chuva, na fazenda ou numa casinha de sapê.

E foi por conta do mal-estar provocado por esta positividade tóxica e prêt-à-porter que me integrei em uma turma de mestrado de Filosofia, em uma universidade pública do Rio de Janeiro, como aluno ouvinte de uma disciplina cujo conteúdo são os ensaios do filósofo e sociólogo sul-coreano Byung-Chul Han. Seu best-seller Sociedade do Cansaço aumentou minha compreensão sobre o tema.

O ponto de partida do autor é sua crítica à forma que capitalismo contemporâneo tomou em um mundo mergulhado em tecnologias digitais. É bom lembrar que Han é filósofo e também sociólogo. Ele desconstrói o modelo da sociedade disciplinar desenhada por Foucault e sustenta que já não são mais necessárias as antigas instituições coercitivas, que controlavam as pessoas com micro penalidades e castigos. Agora, quem vigia e castiga é o próprio sujeito. Cada um se auto explora em uma sociedade de desempenho e rendimento.

Nasce daí seu conceito de Psicopolítica que conta com um rico arsenal de positividade feito de  otimismo ingênuo, discursos motivacionais, teologia da prosperidade, literatura de autoajuda e clichês distorcidos de empreendedorismo, neuropsicologia, mindfullness e processos de coaching. Sinais de cansaço, estresse, pânico, depressão e outros transtornos psicológicos passam a integrar a zona sombria da negatividade, incompatíveis com as expectativas da sociedade do desempenho.

Neste modelo social é o próprio sujeito que deve se tornar um empreendedor de si, de suas finanças, saúde, beleza física, performance esportiva, etc., custe o que custar. Contanto que brilhe das telas e prateleiras digitais, sorridente, dissimulando o estresse e o burnout com um sorriso transbordante de positividade, a mãe de todos os cansaços. Ainda que o custo da autossuperação possa ser a autossupressão. Curiosamente, a tradução inglesa do livro Sociedade do Cansaço é The Burnout Society.

Byung Chul Han escreve de maneira enxuta, exata e poética. Às vezes, alguns trechos de seus ensaios curtos, densos e tocantes lembram os hai-kai. Sua voz, em alguns momentos, se parece a de um monge budista quando insiste na retomada do exercício do pensamento, da vida contemplativa e na prática da meditação para se tomar de volta o tempo em nossas mãos, em uma sociedade marcada pelo cansaço.

 

(1) https://news.stanford.edu/2021/02/23/four-causes-zoom-fatigue-solutions/

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
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