Vacina pouca, meu braço primeiro

mar/2021

Quando a gente tem que filmar a vacinação de idosos para que eles não sejam enganados pela malandragem de um agente de saúde cuja intenção secreta é ficar com a dose do imunizante, aí nos damos conta de que a ética que vigora na Grande Família do Brasil é a de Agostinho Carrara. Lineu e dona Nenê, personagens da antológica série de TV, jamais lançariam mão, por exemplo, no auxílio emergencial, criado para as famílias mais afetadas economicamente pela pandemia da Covid-19, como o fizeram os mais de 680 mil servidores federais, estaduais e municipais, genuínos representantes da Lei de Gerson, gente esperta e que só pensa em levar vantagem.  

Há mais de duas décadas dou aulas de Ética em cursos de pós-graduação, quase sempre dirigidas aos gestores empresariais e por isso Ética nas Organizações. Os alunos chegam reticentes em relação à matéria, julgam que será uma sessão de catequese e conselhos morais.     

Ao longo das aulas, felizmente, se empolgam com o método participativo e passam a compartilhar suas experiências, comparando as boas práticas e políticas de gestão com e por valores éticos, com ações cosméticas em lugar de ética. São unânimes em apontar os avanços éticos no âmbito da diversidade e da inclusão.    

O clima esquenta quando os mais experientes no mercado de trabalho trazem histórias de escândalos empresariais. Como meus alunos vem de absolutamente todos as áreas profissionais, logo se vê que a corrosão da ética se dá em toda parte. Ouvi relatos de gente das engenharias e empreiteiras, escritórios de advocacia e contábeis, marketing, saúde, educação, Terceiro Setor, gestão pública, política, polícia e Forças Armadas, igrejas e organizações religiosas.

Aos poucos entendem que os temas têm muita relevância e podem ajudá-los na hora de atravessarem o temido portal da tomada de decisão e nos dilemas éticos. A ficha cai quando se dão conta de que ética está ligada visceralmente à liberdade e que a vida não tem tutorial ou manual de instruções. As esquinas da carreira profissional demandam postura (héxis) e caráter (ethos), duas raízes para a palavra ética. Ambas convergem num ponto: o cuidado de si e o zelo com a polis.

Enquanto o radical grego ethos se refere aos costumes e à formação do caráter para o exercício da vida na esfera pública, a héxis, outra raiz, remete à postura corporal, à atitude de um atleta numa disputa esportiva ou de um guerreiro antes da luta. A ética como héxis seria uma predisposição corporal para a ação: seja de defesa da comunidade ou de disputa da coroa de louros.

Parece que as estátuas gregas com belos corpos desnudos confirmam essa relação entre ética, postura e predisposição para a ação. Afinal, como alcançar a coroa de louros olímpica sem ter se implicado com disciplina, rigor, pontualidade, renúncia, resiliência, dedicação, determinação e foco?

Quanta héxis está contida, por exemplo, nas medalhas de ouro da gaúcha Daiane dos Santos? Ou do paratleta nadador Daniel Dias? Ou dos profissionais de saúde que se dedicam dia e noite no enfrentamento da pandemia? Bem falou Aristóteles: o caráter de uma pessoa é, em última análise, a soma de suas múltiplas héxeis.

 

Senhores passageiros

Uma nova safra de alunos, mais impaciente com o conteúdo reflexivo e filosófico, sugere que enfatize mais questões práticas da vida empresarial: código de conduta, governança, protocolos jurídicos, ouvidoria, controles, auditoria, fiscalização, enfim, Compliance.

Mas eu não arredo o pé das ruas de Atenas. Sigo peripateticamente, com ironia socrática, demonstrando a eles que aquela urgência por respostas pragmáticas pode ser válida, mas também pode ser sinal de lacuna e falta de predisposição à introspecção, à reflexão e a héxis que fundamenta a discussão. Como liderar e gerir sem amadurecer a capacidade de escuta, compreensão e diálogo?

A adrenalina retorna às aulas quando convoco Ícaro, o sonhador equivocado das asas de cera, abro a caixa de Pandora, desacorrento Prometeu e chamo Cassandra para depor sobre sua dificuldade em persuadir e antecipar os riscos. Cada aluno toma seu assento na nave de Sofia, apertamos os cintos e sobrevoamos os céus do Peloponeso, contemplando pela janelinha a mítica Atenas onde circulam os adoráveis peripatéticos pelas ruas e becos. Contemplamos lá de cima o rio da dialética de Heráclito e bem de perto, voando ao nosso lado, a Coruja de Minerva – a que alça voo quando as sombras caem, diz o oráculo – nos acompanha.

Imitando a voz piloto de avião, alerto a todos:   

– Senhores passageiros, em caso de turbulência, máscaras de oxigênio cairão. Primeiro coloque em si, em seguida ajude a pessoa ao lado…   

 

Carlos Linhares

Carlos Linhares

Colunista

Psicólogo e antropólogo, mestre e doutor pela UFBA. Atua na UNEB e UNIFACS. Consultor em Organizações, coach, instrutor e palestrante. Sócio diretor da Strata Consulting.
Mais artigos

A potência oculta dos ritos de passagem

Vocês já repararam quantos ritos celebramos nos meses do verão? A temporada começa antes do Natal. Sagrados ou profanos, eles estão presentes nas tradicionais confraternizações que demarcam o fim do ano laboral, com os lúdicos “amigos-secretos”, típicos ritos “de...

ler mais

Priorizar a saúde mental

Foi há uns tantos anos atrás, eu atuava em um RH do Polo Petroquímico de Camaçari, foi quando escutei um operário chamar um colega de chão de fábrica, de Tarja Preta. Rodrigo era seu nome e ele havia usado antidepressivos ao longo de um período da doença. O bastante...

ler mais

Os saveiros e a aceleração social do tempo

Um dos produtos mais misteriosos que os mestres de saveiros transportavam nos barcos ancorados no Porto da Barra de minha infância era o Tempo. Traziam todo tipo de mercadoria para abastecer a feira livre do bairro, vindos das mais longínquas praias, muito além da...

ler mais

Pensamento crítico e inteligência artificial

Era o Reino das Matemáticas, no curso de Tecnologia da Informação. Foram vários semestres ao longo de quatro anos, diferentes turmas, mas em cada uma  fui recebido com um misto de cordialidade e desconfiança. Temiam que a disciplina de Psicologia fosse perda de tempo...

ler mais

junte-se ao mercado