Até onde a lei da proteção cuida de nós?

jun/2020

Uma semana antes da OMS emitir o alerta sobre a epidemia do novo coronavírus na China, a startup de inteligência artificial BlueDot detectou a doença e os locais onde iria se espalhar. O alerta poderia ser dado antecipadamente para toda sociedade, porém a tecnologia do aplicativo não depende de fontes oficiais do governo, então a China teve que aguardar uma informação oficial para começar a agir. 

As utilizações de ferramentas de monitoramento digital são úteis para entendermos o comportamento humano na internet, esse cenário muda um pouco com a nova LPDG (Lei de proteção de dados) ela cria um cenário de segurança jurídica para o uso dos dados pessoais.  Do acesso as redes sociais, aplicativos de banco, compras online, publicidade, tudo que é feito na internet terá como padronização essa lei, para que haja maior cuidado no compartilhamento com terceiros.  Um dos pilares da lei é o consentimento, mas quem nunca deu ok naquele banner com a política de segurança do site sem ler?

A privacidade deve ser preservada, mas até onde devemos ir para encontrar soluções que nos livre de problemas do tempo das cavernas?

Vamos fazer um exercício simples, fosse criado uma tecnologia por meio de machine learning, que mapeasse e rastreasse as buscas de mulheres por termos: “como esconder um olho roxo”, “como denunciar um estupro”, “como conseguir proteção após denúncia” e esses dados fossem compartilhados com uma central da polícia da mulher e assim aumentássemos a chance de diminuir o número de feminícidio?  Essa liberdade de dados poderia antecipar soluções para salvar vidas e não apenas gerar lucros para empresas.

O que o agressor pensaria, quando soubesse que dados como esses estão sendo observados? Diminuiríamos a chance da violência? Pode parecer utópico, mas a questão é, como a iniciativa pública pode usar melhor nossos dados e apresentar soluções mais rápidas?

Somente ano passado, no Brasil, 1,6 milhão de mulheres foram espancadas ou sofreram uma tentativa de estrangulamento. Essas vítimas dependem financeiramente ou emocionalmente dos seus agressores. Será que de algum modo a tecnologia poderia ajuda-las preservando sua privacidade?

Aplicativos como Malalai, que ajuda as usuárias a pensarem melhor em sua rota ou como o Nina que permite que mulheres denunciem linhas de transporte público nas quais sofreram assédios, são exemplos de aplicativos que podem ajudar mulheres que vivem nesse contexto, trabalhando como ferramentas de medidas protetivas contra a violência.

Uma solução estilo Minority report, antecipar um crime antes de acontecer na mente do agressor, é algo bem distante, mas rastrear dados é uma iniciativa que poderia ajudar programas como a Ronda Maria da Penha, que faz o acompanhamento de medidas protetivas contra mulheres vítimas de violência na Bahia e em cinco anos já prendeu 271 agressores e atendeu 6.963 mulheres. Com a possibilidade do uso de inteligência artificial esse programa poderia ser ainda mais efetivo.

A tecnologia nos mostra que investir em iniciativas para transformar a vida de mulheres, que vivem em situação de risco ou violência, pode ser muito mais assertivo se forem criadas com base nos dados, pois são eles que irão nos mostrar através de algoritmos verdades que muitas de nós não temos coragem de contar.

Alessandra Fernandes

Alessandra Fernandes

Colunista Convidada

Analista de Comunicação Institucional na Federação das Indústrias do Estado da Bahia –FIEB.
Especialista em tirar projetos e ideias do papel e fazer acontecer. Publicitária com experiência diversificada na área de marketing, planejamento e gestão de campanhas publicitárias e desenvolvimento de projetos digitais

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