Capitu, o Brasil e suas verdades

fev/2020

Há mais de um século nos debatemos com a inquietante dúvida acerca da suposta traição de Capitu a Bento Santiago, em Dom Casmurro. Dúvida, que até pouco tempo, impossibilitava a nós, expectadores dos fatos históricos, uma visão lúcida do cenário – ora por temermos enveredar por uma trama alucinatória, ora por receio de sermos injustos com Capitu, ora por não admitir que vivemos todos uma grande encenação, ou ainda, por acharmos que, verdade ou não, a traição é natural e irrelevante.  

 

Só que agora existem duas verdades evidentes: Capitu traiu Bentinho e todos na Corte sabiam e se locupletavam – uns esbanjando em noitadas luxuriosas, outros catando as migalhas remanescentes do chão do palácio.

 

Mas ainda existem plebeus que se perguntam se devemos acreditar nas tramas sórdidas. A recusa em enxergar desvela um processo de negação, que quando não bem processado, tende a ter consequências perversas. Nesse caso, no campo político e social.

 

Para aproveitar a oportunidade dada pelo momento histórico e ir adiante nos avanços políticos, temos que suplantar rígidos posicionamentos partidários e admitir a engrenagem parasitária a qual estamos submetidos. Urge finalmente começar o processo de expurgação, freando a fixação no feroz embate entre quem é mais ou menos culpado e entendendo que não existe o lado do vilão ou do mocinho.  

 

A plebe não sofre só pela traição, mas porque agora percebe que enquanto permaneciam à luz de candeeiro, as luzes que resplandeciam do Casarão Republicano não advinham da gratuita e democrática luz do luar. No entanto, a fatura sempre chegou a eles.

 

E, assim, com a traição escancarada, ultrajados, teremos que começar a reconhecer que mais que sexual, a traição, nesse caso, é perversa e subtrativa, sendo necessário convencer a si próprio de que existe saída, que não o destino de vítima.

 

Tenha coragem, Senhor Bentinho, para não inviabilizar a sequência do processo democrático e de expurgação. Admitir que Capitu esteve nua nos braços de outro é sofrido, mas é a única forma de poder tê-la novamente nos próprios braços.

 

De fato, a Rainha está nua.

 

Encarar a dupla moral a que estamos submetidos, onde em alguma medida somos também corruptores e corrompidos, permite ver além dessa “moral de circunstância”. A traiçoeira corrupção, com sua impactante abrangência é elemento constitutivo do tecido social e de todos nós.

 

Bentinho deixou passar o bom da vida preso a um passado de aflitivas dúvidas. Hoje se depara com a verdade que lhe foi jogada na cara. Sua tarefa agora é refletir sobre a parte que lhe cabe nisso tudo e escapar da tentação das obsessões que podem paralisá-lo pela via da negação, vitimização e ressentimento.

Karin Koshima

Karin Koshima

Colunista

Analista política e de mercado. Especializada no comportamento do eleitor e consumidor.  Psicóloga, psicanalista e Mestre em Políticas Públicas.

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