Entrevista: Ana Coelho – Ex-presidente da ABMP

dez/2021

“Eu tenho um perfil muito feminino, de agregar e trouxe isso para a gestão. Quem quisesse vir era bem vindo pra ampliar o olhar da ABMP, pra ajudar a entidade a ter voz e ser vitrine do mercado. “         

                                                                                                                                                                        

Em quatro anos a frente da Associação Baiana do Mercado Publicitário, a primeira mulher a assumir a presidência, Ana Coelho, trouxe as lives semanais para a grade fixa de conteúdo, gerando mais de 100 vídeos com profissionais gabaritados do mercado local, nacional e internacional no Quem sabe faz a live e ABMPtalks, idealizou e realizou também o Salvador Creativity and Media Festival – Scream, maior evento de criatividade e mídia do Norte e Nordeste, deixando um legado que virou referência para o segmento e missão de continuidade para o próximo gestor.

Neste bate-papo, em tom de despedida do cargo, mas não da entidade, na qual seguirá como parte do Conselho Fiscal, a publicitária faz um balanço dos biênios 2017-2019 e 2019-2021 à frente da associação. Ela avalia ainda os principais desafios em conduzir a gestão, entre eles, o associativismo das empresas baianas que deixam a desejar. O que será que falta para o mercado criativo da Bahia deslanchar?

 

ABMP: Seu plano inicial era ficar dois anos na ABMP. O que aconteceu no meio do percurso para dobrar este tempo e seguir em mais uma gestão?

AC: Os dois primeiros anos passaram voando. A gente fez muita coisa, teve muita entrega. Quando me dei conta, já tinha que pensar na sucessão. Não pensei, chegou a data e é muito comum, numa associação, a pessoa ficar mais uma gestão. Acabei ficando e a segunda gestão começou, praticamente, com a pandemia. Nesse sentido, foi bom permanecer. Hoje, Lucas entra num momento que a gente já entende mais a pandemia. No começo, foi bem difícil e seria um desafio ainda maior pra quem fosse assumir a entidade. Fiquei e valeu muito a pena, com muito aprendizado.

 

 

ABMP: O que significou, para você, ser a primeira mulher na presidência de uma associação que existe há mais de 20 anos?

AC: A primeira recordação que tenho da gestão e que me marcou, foi de quatro anos atrás, 4 de dezembro de 2017, no evento de posse da presidência com familiares, amigos, colegas do mercado publicitário. Ouvi de diversas pessoas que eu era a primeira mulher a assumir a ABMP, uma entidade de 20 anos. Eu nunca tinha parado pra pensar que eu era ou não era a primeira mulher, até porque eu estava ali não por esse motivo. Com o passar do tempo, comecei a entender a importância dessa representatividade feminina e foi um dos presentes que a entidade me deu.

Quando cheguei neste lugar de representatividade, o feedback que recebi de outras mulheres sobre inspirá-las a ter coragem pra ocupar espaços, foi muito grandioso. Aprendi a importância de valorizarmos esse poder que temos de ajudar e mostrar que a gente pode o que quiser, independentemente do que escutamos na infância ou ao longo da vida, de que as mulheres têm menos espaço. Quem está numa posição, conseguiu chegar, tem um compromisso de apoiar outras. Isso é bom pra todos. Mulher é maioria na população mundial, mas é minoria ainda na ocupação de cargos mais altos nas organizações. Juntas podemos mudar esse cenário.

 

ABMP: Quais foram os principais desafios? Os associados e mercado estavam abertos para uma gestão mais ousada, feminina e agregadora?

AC: Logo que assumi, falei ‘gente, vocês estão me botando nesse negócio, mas eu já sinto uma transformação grande vindo aí no nosso mercado. Vamos virar essa mesa, transformar também’.

Mas, transformar é muito difícil. A gente sempre teve um modelo de trabalho no mercado publicitário e era hora de entender que esse modelo precisava mudar. Pra mudar é necessário ter coragem, sair da zona de conforto, sofrer, sentir. Então, vim muito com essa pegada de que podia até errar, mas tinha que fazer algo diferente. O maior desafio foi ter coragem pra fazer diferente, estar aberto e ouvir.

Eu tenho um perfil muito feminino, de agregar e trouxe isso para a gestão. Quem quisesse vir era bem vindo pra ampliar o olhar da ABMP, pra ajudar a entidade a ter voz e ser vitrine do mercado.

ABMP: Falando em agregar, as empresas baianas, culturalmente, são participativas e associativistas?

AC: As empresas baianas não são participativas e associativistas. A gente não tem a cultura do associativismo forte no estado, na verdade, temos uma cultura até de desagregar, quando deveríamos, realmente, incentivar essa cultura pra que pessoas e organizações se unam mais. Os concorrentes podem se unir e isso pode ser muito bom para o mercado. Quando se fala em segmento, quanto mais unido, melhor. Devemos incentivar essa união.

 

ABMP: Inovar foi a palavra de ordem à frente da associação?

AC: Eu assumi a gestão com o propósito de sacudir o mercado preservando os projetos que já vinham sendo feitas pela gestão anterior, de João Gomes, que é uma pessoa excelente, muito capaz e volta agora como vice-presidente. Inovar é uma palavra que busco manter no meu cotidiano, nas minhas atribuições diárias. Aos poucos fomos botando nossa cara, criando novas ações. No mesmo mês da posse, já começamos a planejar o Scream, que aconteceria em dezembro de 2018, exatamente um ano depois. Além de pensar nesse projeto maior, que é um palco de festival de criatividade, de ouvir pessoas, ouvir ideias, a gente falou em usar a ABMP pra ser uma vitrine. Daí, começamos a primeira temporada do Quem sabe faz a live, programa realizado em estúdio com um mediador e convidados.

Era quinzenal, transmitido de um estúdio e, na pandemia, passou a ser o ABMPtalks, semanal, pelo Instagram. É um programa de uma hora debatendo nosso mercado, mercado publicitário, economia criativa, tecnologia, inovação, empreendedorismo, sempre dando espaço para opiniões diferentes. E a gente tem esse material todo, de quatro temporadas, mais de 100 programas, como um conteúdo provocado e usando a representatividade da entidade ABMP pra dar voz ao mercado.

 

ABMP: O que você leva desta experiência?

AC: Pra mim, o maior presente de ter me dedicado a esse trabalho, representando esse mercado, são as pessoas que você conhece ao longo da sua jornada. Ao longo desses quatro anos, as amizades, as trocas, o aprendizado, tem sido, sem qualquer dúvida, o que mais agreguei de valoroso.
Sou muito grata por todas as pessoas que passam pela minha vida. Gosto de associativismo, de trabalhar em grupo. Fiz parte da fundação, em 2006, da Associação dos Jovens Empreendedores, a AJE, e é sempre um presente porque é uma dedicação conjunta de um grupo de pessoas com propósito comum pra entregar algo que vire legado, ficando pra gente que conduz as amizades, as relações.

Na ABMP não foi diferente. Ganhei amigos, conheci pessoas e aprendi muito. Passo esta sucessão pra Lucas de uma forma muito feliz porque sei o quanto ele é capaz, o quanto tem a agregar e transformar. Fico até emocionada porque a entidade, quando a gente é presidente, é como um filho. Assim como meus filhos, quero que a ABMP voe!

ABMP: Conselhos para o próximo presidente?

AC: Tenho certeza de que Lucas vai fazer um trabalho incrível, dando continuidade aos projetos que já vêm sendo feitos. Ele tem o olhar do novo, da tecnologia na comunicação, já faz um trabalho incrível na Zygon e tenho certeza que vai tirar de letra, com mais inovações e boas propostas.

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